





Kelly Reichardt constrói, em THE MASTERMIND, um cinema de planos tortos, onde a própria ideia de gênio já nasce levemente fora de eixo. Trata-se de um filme de roubo, sim, movido por arranjos capengas, decisões mal alinhavadas e a crença quase infantil de que, apesar de tudo, ainda pode dar certo. Há um espírito de Ernst Lubitsch nessa confiança quase romântica no erro, de Jacques Tati no fascínio pelos pequenos desajustes que empurram tudo para fora do lugar, de Preston Sturges na ironia que converte grandes ambições em confusões modestas e até, veja só, um Melville em modo screwball, onde o rigor do crime serve apenas como trampolim para o engano. O que se anuncia como “golpe de mestre” logo se revela exercício de ingenuidade, e é justamente aí que a narrativa encontra tal graça, convidando o público em acompanhar essa queda com prazer cúmplice, ele rindo da sequência quase coreografada de decisões chinfrins.
Josh O’Connor naturalmente é o motor da desordem, um protagonista elegante e desastrado, que entra em cena acreditando controlar todas as variáveis enquanto, na prática, é ele quem as espalha pelo chão. Convencido de sua própria esperteza, move-se com a segurança de quem sempre chega meio passo atrasado: conhece o museu, reúne cúmplices, confia demais na própria intuição e insiste em repetir que o plano é sólido, brilhante, infalível. Reichardt o observa com carinho irônico, nunca como mente criminosa de alto calibre, e sim como catalisador de equívocos, alguém que confunde autoconfiança com estratégia e improviso com genialidade. O roubo acontece cedo, quase com displicência, e quando inevitavelmente dá errado não gera explosões nem correria, apenas inaugura uma sequência de embaraços progressivos. A genialidade do roteiro nasce desse acúmulo, das recusas em admitir o fracasso, da decisão obstinada de seguir adiante quando tudo, absolutamente tudo, já deixa claro que seria mais sensato desistir.
À diretora cabe então desmontar o heist movie ao submeter o gênero ao ritmo do mais comum, deixando que os erros se acomodem, que as relações familiares ganhem contornos esquisitos e que o dinheiro exponha, sem alarde, sua completa inutilidade prática. A presença de coadjuvantes como Alana Haim, Gaby Hoffmann, Bill Camp e Hope Davis só consolida um universo em que ninguém parece plenamente preparado para o que está acontecendo, embora todos ajam como se estivessem. Entre carros, cozinhas e salas de estar, o filme acumula um humor rasteiro, quase invisível, que nasce menos de piadas bem colocadas do que da observação precisa da vergonha alheia, pessoas que ocupam o espaço errado no momento errado, como se a comédia surgisse exatamente dessa incapacidade crônica de saber onde se colocar.
O que se impõe, ao final, é uma comédia de erros, uma farsa delicadamente desalinhada sobre a fantasia persistente de que ainda seria possível executar um plano perfeito em um mundo cheio de distrações, atrasos e equívocos mínimos. Reichardt filma tal fracasso com ternura enviesada, convertendo o crime em pretexto para observar a comicidade da ilusão, a fragilidade das certezas masculinas e esse prazer meio inconfessável de ver o controle escorrer pelos dedos. Não se ri do desastre em si, e sim do reconhecimento tardio de que ele já estava ali, inscrito desde o começo, dobrado na própria ideia. Aqui, nada sai errado por acidente: tudo já nasce ligeiramente fora de eixo, obediente à lógica dos planos (infalíveis?) que abrem o filme e o fecham como uma assinatura.
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 74/100

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