Uma Batalha Após a Outra

Excitados? Porque o que Paul Thomas Anderson filma, nos violenta pelo contrário, um projétil lançado contra a complacência, uma câmera que se recusa a recuar, um bangue-bangue americano filmado como se fosse uma revolta de rua, com poeira, sangue e gás lacrimogêneo… sim, uma piscadela à Leone, Corbucci e Castellari não para ressuscitar o faroeste, mas para lhe arrancar a anatomia do confronto, os duelos que não se encerram no disparo, mas se estendem pela sociedade como fraturas sociais, ali estilhaçando tudo, famílias, ideais, nação.

O texto é sempre essa bala perdida, uma sucessão de embates radicais, trincheiras cavadas entre extremos. Não há meio-termo aqui, não há neutralidade possível, só soldados, o esmagador tanque de guerra de Sean Penn, a “Perfidia” de Teyana Taylor como guerrilheira, sobrevivente de um sistema que a força a ser tudo (ou nada) ao mesmo tempo: mãe, soldado, máquina. Benicio Del Toro surge como Sensei de uma serenidade irônica, ancorando uma narrativa que, em sua fúria, poderia se despedaçar. E no centro, Leonardo DiCaprio, esse pai falho, um revolucionário derrotado correndo ou fugindo ou lutando com o peso de um passado incendiário. Ele, não apenas carregando a filha pela mão, mas toda a herança maldita de uma América feita de muros, fuzis e fronteiras, pátria agora de roupão e chinelo, na brisa de uma paranoia sem fim.

Então, o cineasta filma como se estivesse no front. Cada perseguição é um protesto reprimido, cada explosão ecoa como granada atirada em praça pública. O VistaVision amplia não só os horizontes, mas o impacto: vemos os rostos em close como cartazes erguidos, vemos os carros em fuga como barricadas improvisadas. Há algo de épico, mas o épico aqui é sujo, contaminado, atravessado pela urgência de tempos em que a extrema-direita marcha fardada e orgulhosa pelas ruas, empunhando mitos e metralhadoras.

E assim se constrói UMA BATALHA APÓS A OUTRA, não apenas como cinema, mas um confronto ideológico filmado com a precisão de uma ópera de guerra e donde se expõe o delírio de poder, a nostalgia racista, a obsessão armamentista, e os joga contra personagens que só buscam reencontro: com a filha, com a própria dignidade, com a ideia de comunidade. E é nessa tensão que o filme encontra sua poesia: no gesto mínimo de proteger, no ato político de resistir, no abraço que insiste em atravessar a fumaça tóxica do autoritarismo.

Se Leone filmava homens isolados no deserto e Corbucci buscava no pó a tragédia dos condenados, PTA traz essa tradição para o asfalto rachado da América contemporânea. Não há heróis imaculados, apenas sobreviventes em marcha, cansados mas inquebráveis. E ao final, quando a poeira finalmente abaixa na estrada, percebemos que o duelo não acaba, sempre há outra batalha para lutar.

Sim, um filme que pede plateia em sala escura, em tela gigante, com som ensurdecedor. Mas, acima de tudo, pede consciência. Paul Thomas Anderson transformou o cinema em campo de guerra e nós, espectadores, não saímos ilesos.

Por Mauricio Ribeiro

RATING: 95/100

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FILMES

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