O Último Azul


Sob os efeitos visionários da baba de um caracol encantado, O ÚLTIMO AZUL se abre como uma miragem líquida no coração da Amazônia: um delírio pós-tropical onde distopia e fantasia se dissolvem em cores que escorrem pela tela como se fossem seiva, suor, lágrima… Gabriel Mascaro, sempre interessado nas zonas de atrito entre corpo e poder, desta vez aposta na jornada de fuga e reinvenção, agora em torno de uma idosa, 77 anos, que recusa a “docilidade” da deportação planejada pelo Estado para, então, se lançar no cinema-barco-rio de errância e sobrevivência.

O gesto é muito simples, tão somente uma mulher que diz não, mas Mascaro reveste essa narrativa com ritual psicodélico. O azul se torna uma trilha, mas também veneno e antídoto, sonho e armadilha. E por cada curva sinuosa desse rio (ou projeção?), a floresta pulsa como uma boca que engole e regurgita a protagonista. Então, um cinema que não descreve a Amazônia, mas a transpira e nos inebria com verde úmido, verde febril, verde quase alucinógeno.

Denise Weinberg, sempre luminosa, se move como se tivesse tragado o próprio caracol místico que o filme inventa. Seu corpo, longe de ser monumento à decadência, se torna a exemplificação da rebeldia e por cada gesto dela, vemos um direito inalienável: o de desejar. Ao lado, em algum ponto, Rodrigo Santoro empresta sombra e prisão ao personagem Cadu, prisioneiro do barco tanto quanto a floresta o aprisiona em seus reflexos infinitos. Mas a espinha dorsal do filme é sempre Tereza, esse corpo em travessia, a mulher que, em vez de aceitar o repouso, aposta sua sorte num cassino flutuante, alegoria do Brasil devorado e reinventado entre industrialização, fé e jogo.

Talvez a máquina narrativa de Mascaro seja demasiada calculada em seu tropicalismo sedutor, talvez o feitiço soe excessivamente coreografado, quase um feel good movie embebido em psicodelia, mas talvez – só talvez -essa seja a graça: um filme que não se pretende ser Herzog ou Ciro Guerra, tampouco uma parábola seca sobre exclusão. É antes uma oferenda, feita de azul viscoso, flamboyant e sensual ao direito de sonhar, mesmo quando o Estado decreta o contrário.

Ao fim, tal cinema é menos sobre a velhice que sobre a vertigem de viver sem prazo de validade. Como um barco que se perde no labirinto dos igarapés, o filme nos convida a errar junto à protagonista, a tropeçar em peixes que lutam, jacarés desossados, pregadores em esplanglês e, sobretudo, na possibilidade de que o futuro não seja programado, mas sim improvisado, como o rastro azul que um caracol deixa na beira de uma folha. É cinema que se toma em goles, como se fosse um chá alucinógeno. E quando a sessão termina, resta um sabor jambu herbáceo, um zumbido na boca, a sensação de que a Amazônia ainda nos observa, ela azul, infinita, delirante.

Por Mauricio Ribeiro

RATING: 78/100

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FILMES · BERLIM

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