
Há 36 anos, A GUERRA DOS ROSES nos atirou na lama do matrimônio para ali, na batalha, observar Danny DeVito conduzindo o espetáculo como um general enlouquecido: a mansão burguesa transformando-se aos poucos em trincheira, Michael Douglas e Kathleen Turner sangrando rancor com um humor que feria e fascinava. Era guerra, sim, puro pastelão bélico, onde candelabros tombavam como bombas, diálogos curtos cortavam como facas, e risos vinham com gosto metálico de nervos estraçalhados.
Agora, em OS ROSES: ATÉ QUE A MORTE OS SEPARE, Jay Roach herda esse terreno minado, mas decide pavimentá-lo. Sua guerra é outra: não a do corpo a corpo, mas a do deboche, do ping-pong verbal, do sarcasmo afiado. Olivia Colman e Benedict Cumberbatch retomam os papéis, trazendo o humor e o rancor. Sim, há paixão, sim, há pólvora, mas Roach prefere queimar lentamente, em fogo baixo, quase como uma receita antiquada de Julia Child.
Se DeVito filmava o casamento como uma explosão gradual, Roach o trata com ansiedade crônica. Aqui, a guerra não se manifesta em pratos voando, mas em microagressões, olhares desviados, a proibição do sorvete à meia-noite, a pilha de roupas que nunca se move, o “está tudo bem?” murmurando entre dentes cerrados. É um filme de tiques nervosos – como se o casal inteiro fosse uma pálpebra prestes a tremer. E quando a explosão finalmente ocorre, nos minutos finais, soa mais como um ensaio cronometrado do que o cataclismo do original.
A comparação é inevitável: A GUERRA DOS ROSES nos proporcionava o prazer mórbido de rir no exato instante em que o amor se transformava em ódio físico; riso e choque vinham juntos, como uma bofetada inesperada. OS ROSES, em contraste, opta pelo riso tenso, adiado: Tony McNamara escreve diálogos que serpenteiam, ironias afiadas como navalhas, mas que por vezes perdem o golpe fatal. É um humor de sutura, de pomposa classe, bem longe do screwball dos anos 80.
Isso não quer dizer que o filme falhe, pelo contrário: a cena do jantar, com Colman e Cumberbatch duelando entre taças e tostas, é uma joia de crueldade elegante, um sitcom contemporâneo temperado com hostilidade doméstica. A casa, vitrine modernista tão bela quanto vazia, com suas escadas instáveis e arte minimalista, traduz visualmente a relação: fachada impecável, estrutura podre. E Colman, sobretudo, encontra uma nota raríssima, ela simultaneamente adorável e insuportável, alguém que amamos odiar.
O problema é que, ao domesticar o caos, OS ROSES também domesticam o impacto. O roteiro prefere a diplomacia à devastação, a conversa à carnificina. É um filme alinhado ao espírito do tempo – casamentos que se esfarelam mais por burnout do que por explosões passionais – mas, ao fazê-lo, abdica da catarse que fez o original inesquecível. Porque ali, sim, era um bombardeio, este é apenas um cerco silencioso. Um retrato perspicaz, atual, mas que nos deixa saudosos do cheiro de pólvora, do flanco nervoso, da fúria que nos fazia rir… falta explosão, uma pena.
RATING: 68/100

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