
Nem farsa, nem sátira, nem drama, nem tragédia. Teatro? Cinema? Câncer? Cancro? Excreção de gato? Não se sabe. Talvez nem Iñárritu saiba. O que se sabe é que DIGGER cospe em cinema-perdigoto por todos os lados: nem BARDO, nem BIRDMAN, nem glória ou catástrofe, nem mesmo musical, embora encante, nem mesmo comédia, embora ria, nem sequer tragédia, embora tudo pereça. É Iñárritu fazendo Iñárritu contra Iñárritu, mastigando o próprio cinema e cuspindo os restos sobre um salão oval. Um filme que se monta, desmonta, remonta, se enfeita, se enoja e volta a se enfeitar. Miscelânea? Sim, mas salada megalomaníaca servida fría, bem gelada. Ame. Odeie. Ou faça as duas coisas ao mesmo tempo, porque tudo circunda entre a pompa e a piada, a obra-prima ou o mico.
Mico, aliás, nem tão longe. Talvez apenas de terno, sentado no Parlamento… o melhor cenário para entender essa algazarra está nO PARLAMENTO DEVOLVIDO, de Banksy. Para quem não conhece tal obra, basta imaginar a Câmara dos Comuns ocupada por chimpanzés: dezenas deles espalhados pelas bancadas, engravatados, sisudos, solenes, supostamente decidindo os destinos de uma nação. Disso, a ironia: sem precisar transformar os políticos em macacos; basta colocar os macacos no lugar deles para revelar o quanto já pareciam macacos. Iñárritu faz movimento semelhante. Sua sala de crise é um parlamento devolvido à selva, embora a selva aqui use terno, carregue bíblia, ostente medalhas e tenha acesso ao arsenal nuclear. O presidente fala, o general rosna, o vice se perde, o religioso abençoa, o magnata calcula. O mundo desaba do lado de fora e, lá dentro, se discute a narrativa. Não é preciso dizer que a culpa é deles: basta vê-los tentando descobrir de quem será a culpa.
A mirabolância da trama é justamente o tipo de coisa que convém deixar escondida. Quanto menos se sabe, melhor. Basta a premissa: um magnata do petróleo, interpretado por Tom Cruise, leva sua obsessão por controle até um ponto em que a própria natureza resolve responder. A partir daí, gelo, ganância, geopolítica e negacionismo entram em uma colisão que seria melhor descobrir no escuro. O filme não entrega imediatamente suas cartas porque parte de seu prazer está em ver a mesa crescer, crescer, crescer, até já não caberem nela os jogadores. E Cruise, fisicamente, é extraordinário. Não o astro que corre, salta, pilota, explode e desafia a morte, mas um (mero?) homem quase imóvel em sua necessidade de dominar tudo.
Óbvio, a sátira mira, sem qualquer sutileza, a direita patriarcal, ultrarreligiosa, armamentista e trumpista, mas a caricatura é tamanha que sugere um documentário. À mesa, todos os arquétipos de uma política que transformou autoridade em espetáculo: o general cinco estrelas, o vice incapaz, o religioso convertido, o presidente agarrado à própria imagem. John Goodman, aliás, é precioso nesse circo: envelhece diante dos nossos olhos. O rosto pesando, a pele cedendo, a figura presidencial plenamente apodrecendo junto com a própria ideia de autoridade. Goodman faz do corpo uma piada involuntária: quanto mais o mundo exige lucidez, mais o presidente parece se desfazer dentro do terno.
Sim, os tons gélidos, quase anêmicos, fazem pensar em Roy Andersson, sobretudo no universo dO POMBO SENTADO NO GALHO REFLETINDO SOBRE A EXISTÊNCIA: os mesmos personagens pálidos, imóveis, grotescos e melancólicos, como se a humanidade tivesse acordado atrasada para o próprio fim. Tal semelhança vai além da paleta, resfriando inclusive a temperatura moral: sim, a maquiagem carcome os rostos, envelhece, empalidece, transforma a carne em superfície de desgaste. As situações repetem algo de esquete, mas o riso acompanha uma espécie de náusea. Gente muito séria fazendo coisas absurdas; gente muito poderosa revelando fragilidades quase infantis.
A pose, aliás, é fundamental porque tudo parece acontecer sobre um palco. A cenografia, os deslocamentos, a montagem, a maneira como os personagens entram e saem dos espaços evocam ANNA KARENINA, de Joe Wright. Não só um teatro filmado, mas um cinema que deixa à mostra o próprio mecanismo da encenação. Gabinetes parecem cenários, corredores parecem bastidores, reuniões parecem números ensaiados. A política então, vira coreografia, a crise vira espetáculo. Iñárritu não esconde as cordas, pelo contrário, as puxa com prazer, como se quisesse lembrar que por trás de toda aquela pompa existe um bando de atores representando autoridade enquanto o cenário começa a ruir.
Talvez nem importe saber se o filme é farsa ou fatalidade, ópera ou opereta, delírio ou desastre. Iñárritu parece mais interessado no lugar indecente em que o ridículo ganha escala épica e o épico perde a compostura. O mundo congela, os homens discursam, a cortina sobe, a cortina desce. E os macacos, muito sérios, continuam em cena. Não é o fim do mundo, veja bem, é só o mundo fazendo hora extra.
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 70/100

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