




A natureza, em ROSE, nos esmaga. Tudo nela parece grande demais, bruto demais, absoluto demais: a nevasca colossal, a tempestade furiosa, o frio, a montanha, o ataque de um urso… tudo ameaça, avança, atropela, capaz de reduzir o homem a quase nada. E no entanto, nada, absolutamente nada, se mostra tão imperioso quanto os homens. Nem a neve, nem o vento, nem a fera alcançam tamanha crueldade daquela outra natureza, a humana, ali inventada para determinar o que uma mulher pode ser. É o patriarcado rudimentar, bruto, ancestral, entranhado na Europa rural do século XVII, revelando-se mais selvagem que qualquer intempérie. Markus Schleinzer filma esse choque com uma beleza quase solar, mas em preto e branco, como se uma natureza tão hostil, tão áspera, tão desmedida não coubesse em cor. Como em Béla Tarr nO CAVALO DE TURIM, Michael Haneke nA FITA BRANCA, a paisagem, os corpos, a terra, tudo parece submetido à mesma escala de cinza, à mesma luz sem abrigo.
Assim, Rose. Pequena diante da vastidão, menor ainda diante daquilo que os homens decidiram que ela deveria ser. Seu corpo deformado parece destoar da monumentalidade ao redor, como se a paisagem tivesse sido generosa com tudo, menos com aquela mulher. Montanhas se erguem, árvores resistem, animais avançam, a neve cobre quilômetros, e Rose precisa tão somente caber. Seja na casa, nas roupas, no olhar alheio, o tão pequeno papel reservado a uma mulher.
Sandra Hüller encontra nesse espaço uma força extraordinária. Não interpreta um homem, mas uma mulher obrigada a fabricar uma masculinidade para conquistar aquilo que lhe foi negado como mulher. Seu rosto, seu modo de andar, a maneira quase cautelosa de ocupar o lugar fazem de cada gesto uma pequena tomada de posse, seja em peso, desejo, estranheza, tudo é ocupado com dignidade feroz. O disfarce nasce menos da vontade de ser outro alguém do que da descoberta de que, naquele mundo, ser homem significa poder circular, trabalhar, escolher, existir sem pedir licença.
As calças concentram tudo isso. São roupa, esconderijo, disfarce, uma pequena trincheira de tecido. A protagonista veste o que lhe permite atravessar um mundo que não a deixaria atravessá-lo como mulher. Protege o corpo e, ao mesmo tempo, o aprisiona em outra aparência. Que liberdade é essa afinal? Uma liberdade clandestina, apertada pela cintura, enfiada nas pernas. A calça a libera justamente porque masculiniza. E a imagem é cruel porque revela o tamanho do problema: para conquistar um pouco de autonomia, a mulher precisa vestir aquilo que os homens reconhecem como autoridade.
Ao cineasta cabe filmar uma paisagem cada vez mais aberta e uma personagem cada vez mais cercada. Quanto maior o horizonte, menor o espaço que lhe concedem. O urso pode atacá-la. A neve pode soterrá-la. O frio pode matá-la. Nenhum deles, porém, lhe diz como andar, como vestir, que corpo esconder… a natureza ameaça, os homens querem administrar. E ela? não cabe, fica no limbo: de um lado, aquilo que a paisagem impõe. Do outro, aquilo que os homens chamam de natural. E, no meio, essa mulher tentando descobrir quanto de si mesma ainda pode caber dentro das calças.
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 78/100

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