

Se outrora Yuval Abraham e Rachel Szor nos deixaram SEM CHÃO, agora nos deixam sem estômago: vinte e quatro sombras no escuro, rostos cobertos, vozes alteradas, soldados descrevendo a engrenagem de um extermínio. Não falam de pessoas. Dizem “NAZA”, um termo, um número, uma unidade de contabilidade humana… NAZA para a criança sob os escombros, NAZA para a mãe esfomeada, NAZA para o velho que não consegue fugir, NAZA para a família inteira reduzida a uma coordenada. O bairro entra na planilha, a casa vira alvo, a fome vira arma, o cadáver é só um resto. E os restos se amontoam ao ar livre, tantos que os cães chegam antes dos homens. Que homens? Já não resta humanidade alguma.
O que esses 24 depoimentos fazem é pior do que mostrar a matança: fazem ali, a máquina falar. Um soldado explica como se escolhe o alvo, outro conta como uma área inteira pode ser condenada, outro descreve a lógica pela qual uma quantidade previamente calculada de mortos civis passa a ser aceitável. Não existe a névoa da batalha propriamente dita, a confusão do combate, o acaso que costuma servir de álibi à guerra. Tão somente uma tela. Uma coordenada. Um prédio. Um botão. Depois, o concreto partido e gente lá dentro.
Nisso, NAZA se torna quase insuportável pelo que conta e isso basta: o bombardeio não serve apenas para matar quem está naquele endereço, serve inclusive para tornar o endereço impossível. Ali, se destrói a casa, depois o quarteirão, depois o bairro; empurra uma multidão de um lugar para outro, sempre para algum outro lugar que também pode ser bombardeado. A migração deixa de ser fuga para virar um método (de exterminio?). Gaza encolhe enquanto a lista de alvos só cresce. E no meio disso estão os que não podem correr: crianças, idosos, doentes, mulheres, gente que procura um saco de farinha entre uma ruína e outra. A fome, claro, está dentro da operação.
Os cineastas intercalam essas vozes com a noite israelense. Tel Aviv acesa. Carros passando. Pessoas nas ruas. Janelas iluminadas. Alguém em casa, alguém diante da televisão, alguém jantando. A vida segue na serenidade quase obscena. Enquanto isso, a algumas dezenas de quilômetros, um bairro deixou de existir. Uma criança deixou de existir. Uma família deixou de existir. E a palavra que poderia interromper tudo parece não encontrar lugar naquela rotina. Manifestação? Grito? Recusa? Nada. A cidade dorme enquanto Gaza é acordada pela bomba.
Essa montagem talvez seja mais cruel que qualquer imagem de cadáver. Porque o cadáver pode provocar um choque. A normalidade, pelo contrário, causa perplexidade. O que se sente é o abismo entre os que decidem, executam, sabem, assistem ou tão somente vivem. Sim, a televisão pode até mostrar uma explosão mas, minutos depois, devolve a programação e a mesa continua posta, o café esfria, a criança dorme no quarto ao lado… do outro lado da fronteira, outra mãe talvez esteja procurando a própria criança debaixo de uma laje.
Então, de novo: um prédio em pé. A câmera o observa. A bomba chega. Vemos o instante exato em que ele deixa de ser prédio e passa a ser escombro. Para quem filma, foi uma coincidência extraordinária: desta vez a câmera estava lá, mas para quem estava dentro, nenhuma sorte. Nenhum enquadramento. Nenhum segundo de aviso que pudesse ser devolvido na montagem. Só a bomba. Inerte, o público presencia não os drones, não os números, não as vozes alteradas, mas a diferença brutal entre quem pode olhar para a explosão e quem está dentro dela. Uns filmam. Uns apertam botões. Uns assistem. Outros viram NAZA.
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 80/100

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