São Paulo que amanhece trabalhando…
São Paulo acorda cedo… o despertador toca, o ônibus bufa, o metrô chia, a catraca bate, a buzina berra e a cidade inteira diz a mesma coisa: Vambora! Billy Blanco já anunciava essa música há décadas e fez do barulho, uma Sinfonia Paulistana, canção feita de pressa, trabalho, dinheiro, gente indo e vindo, gente que não pode parar. Mais de cinquenta anos depois e talvez falte apenas um verso nessa sinfonia: o mês de outubro, ali o paulistano também corre para o cinema… corre para a sessão das duas, sai antes da luz acender, atravessa a rua, desce a Augusta, sobe a Consolação, pega o metrô, confere o relógio e, sim, esbaforido chega à próxima sala. Se der tempo, deu. Se não der, vambora assim mesmo.
Foi assim que a Mostra entrou na vida de São Paulo. Em 1977, Leon Cakoff colocou 25 filmes de 16 países dentro do MASP, abrindo uma janela que parecia pequena, mas dava para o mundo inteiro. A Mostra cresceu, escapou do museu, se espalhou pela cidade, ocupou cinemas, tantos cinemas que hoje são lugares de memória para quem os viveu: Belas Artes, Astor, Gazeta, Marabá, CineSesc, Cinemateca, Espaço Unibanco, Reserva Cultural e tantos outros e donde cada endereço se fez uma lembrança, sua história, parte de um filme. É assim, porque assistir à Mostra nunca foi apenas sentar diante da tela, mas também desbravar uma cidade diferente, aquela São Paulo de outubro em que o mapa se transforma e uma sessão puxa outra, um cinema chama outro, um filme lhe faz atravessar a cidade inteira.
Na capital do tempo, tempo é ouro e hora…
Vambora! Foram tantos cartazes, cinco décadas povoando a retina, deixando suas próprias imagens pelas paredes, os catálogos, tantos corredores ou mesmo pelas salas de quem guarda um exemplar como quem guarda um pedaço da juventude. Foram tantas vinhetas, segundos preciosos para reconhecer que outubro chegou, tinha uma música, um desenho, um movimento, um pequeno plim, um pá, um tum e pronto, a Mostra estava ali. São essas coisas pequenas que ficam quando o tempo passa: nem falo da fila, do ingresso amassado no bolso, do café entre uma sessão e outra, dos amigos encontrados ao acaso, o filme nas rodas de bar, mesmo aquele outro perdido por três minutos e, principalmente, a sensação de que durante algumas semanas São Paulo se pertence ao cinema.
Leon Cakoff foi o homem que inventou essa aventura e passou décadas procurando filmes como quem procurava novas maneiras de ampliar o mundo. Renata de Almeida esteve ao lado dele nessa travessia e, depois de sua morte, em 2011, continuou conduzindo a Mostra com a mesma maestria. Talvez seja essa a melhor homenagem aos dois: continuar procurando, continuar trazendo o que ainda não conhecemos, misturando o consagrado ao desconhecido, colocando lado a lado um filme cercado de louvores e aquele que ninguém conhece, mas que pode se tornar a grande descoberta da edição.
Porque tudo se repete, são sete,
e às sete explode em multidão…
E agora, vambora! são cinquenta anos…. cinquenta anos de filmes, cartazes, vinhetas, salas, filas, diretores, espectadores, discussões, encontros e desencontros. Cinquenta anos de uma cidade que mudou sem parar, enquanto continua fazendo o mesmo barulho: do ônibus, metrô, chuva, buzina, passos, vozes e projetor… é a tal Sinfonia Paulistana que nunca parou de (nos) tocar e a Mostra, afinal, baila no meio dela. Por isso, quando outubro chegar, talvez tudo pareça familiar, o catálogo debaixo do braço, o relógio na mão, o amigo esperando na esquina, a próxima sessão começando do outro lado da cidade, mas não é. Essa é diferente. É o jubileu daquela velha sensação de que não podemos perder aquele filme, nem aquele outro, nem aquele outro. Então, vambora.
Não correm de, correm para…
A 50ª Mostra já começa a revelar suas cartas, com TIGRE DE PAPEL, de James Gray, na abertura, enquanto os filmes que passaram por Cannes, Veneza, Locarno, Toronto e San Sebastián alimentam a velha brincadeira das apostas. Alguns títulos parecem inevitáveis, outros circulam nas conversas dos cinéfilos, outros ainda dependem de negociação, disponibilidade, cópia, convite, o acaso. E talvez o melhor de tudo continue sendo justamente aquilo que ninguém consegue prever: o filme que chega sem alarde e, de repente toma conta das conversas e, sim, vambora especular: os filmes mais esperados, os mais comentados, as apostas mais fortes e aqueles que queremos muito ver correndo pelas salas de São Paulo. Porque, depois de cinquenta anos, uma coisa continua certa: a sessão vai começar e a cidade, como sempre, vai dizer Vambora, vambora, olha a hora! A Mostra está chegando…
Vambora! Vambora! Olha a Hora!
102 filmes para correr atrás da 50ª Mostra
*** LISTA DE APOSTAS ***

Bastante italiano, sírio e japonês
O mundo inteiro cabe numa Mostra
A GIRL UNKNOWN . Zou Jing 🇨🇳 ♀️
VIVA CARMEN . Sébastien Laudenbach 🇫🇷 🖼️
ELEFANTES NA NÉVOA . Abinash Bikram Shah 🇳🇵 🎥 🏳️🌈
BEN’IMANA . Marie Clémentine Dusabejambo 🇷🇼 ♀️ 🎥
LUCY LOST . Olivier Clert 🇫🇷 🎥 🖼️
TOKYO TAXI . Yôji Yamada 🇯🇵
LE CORSET . Louis Clichy 🇫🇷 🖼️
IN WAVES . Phuong Mai Nguyen 🇧🇪 ♀️ 🎥 🖼️
SHANA . Lila Pinell 🇫🇷 ♀️ 🎥
LA VIOLINISTA . Ervin Han & Raúl García 🇸🇬 🖼️
CONGO BOY . Rafiki Fariala 🇨🇬
AH GIRL . Ang Geck Geck 🇸🇬 ♀️ 🎥
SOUMSOUM, LA NUIT DES ASTRES . Mahamat-Saleh Haroun 🇹🇩
MASTER . Rezwan Shahriar Sumit 🇧🇩
THE ROAD TO JERICHO . Amos Gitai 🇮🇱
VIOLENCE DU CORPS DE L’AUTRE . Denis Côté 🇨🇦
GURIA . Levan Koguashvili 🇬🇪
GROWTH OF THE SOIL . Hans Petter Moland 🇳🇴
NOWHERE TO LAY MY EYES . Hong Sang-soo 🇰🇷

Dinheiro, mola do mundo
Os grandes nomes, os projetos graúdos, os filmes que chegam fazendo barulho
FJORD . Cristian Mungiu 🇷🇴
MINOTAUR . Andrey Zvyagintsev 🇷🇺
A TERRA DO MEU PAI . Pawel Pawlikowski 🇵🇱 🔒
TIGRE DE PAPEL . James Gray 🇺🇸 🔒
SOUDAIN . Ryūsuke Hamaguchi 🇯🇵 🔒
BLACK MONEY FOR WHITE NIGHTS . Kristina Grozeva & Petar Valchanov 🇧🇬
LE JOURNAL D’UNE FEMME DE CHAMBRE . Radu Jude 🇷🇴
QUEEN AT SEA . Lance Hammer 🇬🇧
REHEARSALS FOR A REVOLUTION . Pegah Ahangarani 🇮🇷 ♀️ 🎥 📄
I SEE BUILDINGS FALL LIKE LIGHTNING . Clio Barnard 🇬🇧 ♀️
LES ROCHES ROUGES . Bruno Dumont 🇫🇷
FULL PHIL . Quentin Dupieux 🇫🇷
THE MAN I LOVE . Ira Sachs 🇺🇸 🏳️🌈
SHEEP IN THE BOX . Hirokazu Kore-eda 🇯🇵
THE DREAMED ADVENTURE . Valeska Grisebach 🇩🇪 ♀️
O BOSQUE SELVAGEM . Travis Knight 🇺🇸 🖼️
LET US THROUGH, DEAR ANCESTORS . Lav Diaz 🇵🇭
PLACE TO BE . Kornél Mundruczó 🇦🇺
IMPERIUM . Sergei Loznitsa 🇩🇪

São coisas da noite, anúncios conhecidos
Os filmes que chegam primeiro pelo burburinho
TANGLES . Leah Nelson 🇺🇸 ♀️ 🎥 🖼️ 🏳️🌈
FRANK & LOUIS . Petra Volpe 🇨🇭 ♀️
WE ARE ALL STRANGERS . Anthony Chen 🇸🇬
I SWEAR . Kirk Jones 🇬🇧
ROSE . Markus Schleinzer 🇦🇹
LA BELLE ANNÉE . Angelica Ruffier 🇸🇪 ♀️ 🎥
LA PERRA . Dominga Sotomayor 🇨🇱 ♀️
PSICOPATA VITORIANA . Zachary Wigon 🇺🇸
YELLOW LETTERS . İlker Çatak 🇹🇷
I DREAMED A DREAM . Wei Shujun 🇨🇳
THE DAY SHE RETURNS . Hong Sang-soo 🇰🇷
SIEMPRE SOY TU ANIMAL MATERNO . Valentina Maurel 🇨🇷 ♀️
MIS MUERTOS TRISTES . Pablo Larraín 🇦🇷
YOU DON’T BELONG HERE . Florin Serban 🇷🇴

O sol verdadeiro está no asfalto
Onde podem estar as descobertas, longe dos holofotes
EVERYTIME . Sandra Wollner 🇦🇹 ♀️
MONSTROS DA MONTANHA . Yu Shui 🇨🇳 🖼️
WE ARE ALIENS . Kohei Kadowaki 🇯🇵 🎥 🖼️
L’ESPÈCE EXPLOSIVE . Sarah Arnold 🇫🇷 ♀️ 🎥
LE VERTIGE . Quentin Dupieux 🇫🇷 🖼️
DU FIOUL DANS LES ARTÈRES . Pierre Le Gall 🇫🇷 🎥 🏳️🌈
AQUI . Tiago Guedes 🇵🇹
SHAME AND MONEY . Visar Morina 🇦🇱
NOTRE SALUT . Emmanuel Marre 🇫🇷
SUPPORTING ROLE . Ana Urushadze 🇬🇪 ♀️
TIN CASTLE . Alexander Murphy 🇮🇪 🎥 📄
EVERYBODY DIGS BILL EVANS . Grant Gee 🇮🇪
NUIT OBSCURE – AIN’T I A CHILD? . Sylvain George 🇫🇷 📄
NUISANCE BEAR . Gabriela Osio Vanden & Jack Weisman 🇺🇸 📄
TO HOLD A MOUNTAIN . Biljana Tutorov & Petar Glomazić 🇷🇸 📄
VARIATIONS ON A THEME . Jason Jacobs & Devon Delmar 🇿🇦
GUERRILHA NO ASFALTO . Edgar Pêra 🇵🇹
DAU . Ilya Khrzhanovsky 🇩🇪

A cor diferente do céu de São Paulo não é da garoa
O Brasil e o cinema que pode fazer a cidade se reconhecer na tela
SE EU FOSSE VIVO… VIVIA . André Novais Oliveira 🇧🇷
FEITO PIPA . Allan Deberton 🇧🇷 🏳️🌈
FIZ UM FOGUETE IMAGINANDO QUE VOCÊ VINHA . Janaína Marques 🇧🇷 ♀️ 🎥
O FILHO DA PUTA . Otto Guerra & Tânia Anaya & Sávio Leite 🇧🇷 🖼️
YELLOW CAKE . Tiago Melo 🇧🇷
A PAIXÃO SEGUNDO G.H.B. . Gustavo Vinagre & Vinicius Couto 🇧🇷 🏳️🌈
PRIVADAS DE SUAS VIDAS . Gustavo Vinagre & Gurcius Gewdner 🇧🇷
ISABEL . Gabe Klinger 🇧🇷
A PROFESSORA DE FRANCÊS . Ricardo Alves Jr. 🇧🇷
A MARGEM DO RIO . Matheus Farias & Enock Carvalho 🇧🇷
CHORÃO: SÓ OS LOUCOS SABEM . Hugo Prata & Felipe Novaes 🇧🇷
JUSTINO: NOS BASTIDORES DO REINO . José Eduardo Belmonte 🇧🇷
LEITE EM PÓ . Carlos Segundo 🇧🇷
PELE DE RINOCERANTE . Marcello Ludwig Maia 🇧🇷
VICENTINA PEDE DESCULPAS . Gabriel Martins 🇧🇷
LONDON . Marcio Picoli & Victor Di Marco 🇧🇷

O que vale é a versão, pouco interessa o fato
Porque toda Mostra começa com uma lista, mas termina com uma surpresa
JOSEPHINE . Beth de Araújo 🇺🇸 ♀️
LATE SHIFT . Petra Volpe 🇨🇭 ♀️
HISTORIAS DEL BUEN VALLE . José Luis Guerín 🇪🇸 📄
ONCE UPON A TIME IN HARLEM . David & William Greaves 🇺🇸 📄
DUA . Blerta Basholli 🇽🇰 ♀️
THE STORY OF DOCUMENTARY FILM: 1980S . Mark Cousins 🇬🇧 📄
THE STORY OF DOCUMENTARY FILM: 1970S . Mark Cousins 🇬🇧 📄
SLEEP NO MORE . Edwin 🇮🇩
UNE VIE MANIFESTE . Jean-Gabriel Périot 🇫🇷 📄
I GREW AN INCH WHEN MY FATHER DIED . P. R. Monencillo Patindol 🇵🇭
LOOK BACK . Hirokazu Kore-eda 🇯🇵
FROM INSIDE OUT – THE ARCHITECTURE OF PETER ZUMTHOR . Wim Wenders 🇩🇪
BUCKING FASTARD . Werner Herzog 🇮🇪
CAVALO SELVAGEM NOVE . Martin Mcdonagh 🇬🇧
EU SOU O ROCKY . Peter Farrelly 🇺🇸
I LOVE BOOSTERS . Boots Riley 🇺🇸

Legenda:
diretora mulher (♀️)
filme de estreia (🎥)
documentário (📄)
filme de animação (🖼️)
filme de temática LGBT (🏳️🌈)
filmes confirmados (🔒)
Pela Redação do Spoiler Movies. Matéria de Mauricio Ribeiro livremente inspirada em “Sinfonia Paulistana”, de Billy Blanco (1974)
