La Moula


“Eu me sinto dentro de A BRUXA DE BLAIR”, diz alguém, e talvez seja exatamente esse o problema (ou a graça?). Porque LA MOULA parece, durante boa parte do tempo, um filme que não deveria existir… um jornalista enfia uma camerazinha no meio de uma quadrilha, aponta para um bando de traficantes que cozinham, discutem, desconfiam uns dos outros, contam vantagem, fazem piada, esperam uma carga que talvez nem chegue e, pronto: é um filme. Ou melhor, talvez um making of do filme que ainda não descobriu que está sendo feito. A sensação é de THE OFFICE no submundo, só que, em vez de uma repartição de papelaria, o que se vê é uma casa suburbana de Marselha com criminosos esperando três toneladas de cocaína. Câmera no ombro, celular, enquadramento torto, conversa atravessada, quarta parede e tudo incluso. Sim, temos uma missão de GTA em live action.

Ao redor, Jérôme Pierrat filma a filmagem dos criminosos. Outrora jornalista, agora cineasta, ele invade aquela rotina com a naturalidade de quem já sabe onde colocar a câmera, enquanto seus homens sabem muito bem onde colocar a arma. Aqui, simplesmente se atravessa as fronteiras, levando a própria experiência para dentro da ficção. Mais radical ainda: os traficantes são interpretados por ex-presidiários e os policiais, por ex-agentes da polícia. A roupa é deles, a fala é deles, os gestos são deles, a experiência é deles. A única coisa inventada é a história (mas que história?): um sujeito cozinha enquanto fala de negócios; outro desconfia de todo mundo; outro conta coisas absurdas; alguém entra, alguém sai, a câmera corre atrás. O crime, retirado do glamour do noir, vira quase uma rotina doméstica. E de novo, o gangster cozinha, o gangster reclama, o gangster assiste televisão… O gangster pode matar você depois do jantar.

E, involuntariamente, se faz comédia. Ou tenta. A quadrilha opera quase como um escritório disfuncional: há o chefe, o braço direito que não quer o jornalista por perto, o sujeito encarregado da logística, o cozinheiro, o jovem que conhece “o game”, o contador de histórias. Só falta alguém com uma caneca de “World’s Best Boss” na mesa. A paranoia substitui o café. A cocaína é o assunto da reunião de segunda-feira. O organograma é criminoso, mas a incompetência, a espera, as conversas sem rumo são extraordinariamente humanas. O resultado é uma espécie de sitcom de marginais que atira para o thriller, o documentário, a reportagem e, no fim, lugar nenhum. Pierrat quer mostrar a realidade, sim, mas constrói uma realidade que depende de nos convencer que é real. Quando convence, é engraçado e desconcertante. Quando não, parece um filme barato tentando parecer um filme ainda mais barato. E LA MOULA, com sua câmera nervosa, seus atores que não parecem atores e sua aparência de reportagem clandestina feita na base do “vamos lá, filma”, acaba encontrando algo mais curioso que cinematográfico: senão, um pequeno vídeo, meio documentário, meio comédia italiana, meio matéria do FANTÁSTICO que saiu do controle.

Por Mauricio Ribeiro

RATING: 58/100

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REVIEW · VENEZA

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