Neruda

NERUDA


NERUDA (2016)Que bela poesia Pablo Larrain filmou: De um roteiro de personagens de papel, escreveu em película, histórias de sangue. E de luz, através da luz, todos os olhos sobre ele, todos os lábios querendo lhe beijar, todas as mãos querendo lhe cumprimentar, as mulheres dormir em sua cama, a câmera procurando se enamorar de sua poesia e bebericar cada palavra, logo ficamos apaixonados por esse filme, por esse homem, por NERUDA. Queremos fazer amor com ele, bailar ao luar com uma rosa entre os dentes. Declamado, rarefeito, imerso na noite e na revolução, na festa e na política, vemos instigados, perplexos, o senador da liberdade fugir, todos os flashes sobre o poeta. Os holofotes. A música adornada de rimas. Uma página em branco, a tinta negra… O cineasta filma e escreve sua lenda.

Há também Oscar Peluchonneau, o caçador, o narrador, o coadjuvante. Nessa valsa ele é Gael García Bernal, o grande artista à caça do outro que foge. Além do mar de pedra, por essa gigantesca cordilheira que nunca se quebra, o poeta comunista não tem escolha. O Chile de Pinochet se aproxima. Não há opções. Resta fugir e resistir. Resistir e declamar. O poeta corta cebolas para cozinhar suas lágrimas. A mulher vai ao zoo e nunca regressa. Os belos tesouros são abandonados.

Neruda comunista. Neruda traidor. Te quiero. No se puede imaginar como te quiero.

O reino de intrigas se edifica. De baixo da ponte, do túnel do metro, Neruda resiste. O filho da puta lhe persegue. E onde estamos? Em uma novela noir? Em um faroeste na neve? Num jogo de gato e rato? De dissimulação? De repente tudo se explica porque Larrain confunde a realidade com ficção e dramatiza seu poema. Essa é a prosa de caça e caçador, o poeta e o policial. Tão trágico. Tão depravado. Um criou o outro. Um depende do outro. A HISTORIA SEM FIM donde cada um observa, tão frágil, tão impotente, como o outro se move. Logo, todas as fronteiras são borradas. O cinema se torna livro. O livro se torna cinema. Em êxtase, perseguimos uma águia, mas não sabemos voar. Acabamos com o fantasma em uniforme. Oscar é seu nome.

“Então, no lugar onde tombaram os assassinados, baixaram as bandeiras para se empaparem de sangue para, ali, se erguerem de novo diante dos assassinos. Por estes mortos, nossos mortos, peço castigo. Para os que salpicaram a pátria de sangue, peço castigo. Para o verdugo que ordenou esta morte, peço castigo. Para o traidor que ascendeu sobre o crime, peço castigo. Para o que deu a ordem de agonia, peço castigo. Para os que defenderam este crime, peço castigo.” E não, para Larrain, não há castigo. Só palmas!

RATING: 88/100

TRAILER

Article Categories:
CANNES · FILMES · SAN SEBASTIAN · TIFF

Deixe uma resposta