Banel & Adama: Amor ou Tradição

BANEL & ADAMA nos sussurra sobre destino, perdas e sacrifícios. É uma história de amor, de protagonistas extremamente apaixonados que encontram um, no outro, alguém querido que perderam. Assim, a natureza (humana?) toma conta da película, se apodera das imagens, cenas de beleza pictórica, para nos encantar com fábula sudanesa, misticismo sobre pescadores e sereias, contos Islãs em cultura exuberante e o caminhar de dois jovens frente suas (novas) responsabilidades.

Uma grande (e trágica) história de amor portanto, uma história que se apodera dos signos da África, não o fetiche da violência, do terrorismo, da pobreza que o cinema tanto prega na região, mas algo universal, que fala para os africanos, sobre o ser africano, um conto de realismo mágico e muita, muita poesia para enaltecer esses amantes. Um filme também sobre a emancipação de uma jovem, de sua heroína, Banel, cuja paixão pelo homem, Adama, a empurra constantemente para uma vida independente, longe dos tabus da comunidade. Exceto que essa paixão lhe levará muito mais longe, em direção a uma devastadora loucura… de início expresso em ligeira rebeldia, camisa, short, cabelo, a ousadia de se libertar do hijab – e isso permanece intencionalmente em uma narrativa bastante clássica, onde a mulher marca sua vontade de se libertar do patriarcado. No entanto, muito rapidamente, o desejo feroz e obstinado de viver algo diferente se apodera da história, não se trata simplesmente de emancipação porque a protagonista já se sente livre. É maior, quase o sonho de Lady Macbeth, o mito de Medeia, são pequenos detalhes – o que ela nos conta, o que ela faz – que enfatizam essa loucura: quem é essa mulher afinal? assassina ou amante? mulher sagrada ou mártir?

Uma mulher apaixonada que mata por amor e cuja fotografia brinca com tal espírito. Absolutamente. Quanto mais se progride, mais seu coração seca, mais a imagem se adapta, partindo da luz quente, quase onírica, que amplia as paisagens (a percepção?) para algo mais mordiscado, como se tal cinema sentisse o peso da convenção. Uma descoloração da imagem – e dos figurinos – ocorre, quase imperceptível de uma cena para outra, e é apenas no final que se percebe toda a extensão, essa perda completa de cor e a brancura deslumbrante da luz. O mesmo ocorre com o som, o silêncio inundando cada frame, nada de folhas se movendo nas árvores, nada de pássaros cantando, de animais gritando… tudo está em silêncio, tudo está morto.

Khady Mane e Mamadou Diallo interpretam o conflito, essa loucura, sim, um amor profundo e sincero, mas cujo sentimento se frusta pelo mundo afora, as convenções, as restrições impostas, a seca, esse sacrifício… um amor tão somente – você sente – fadado ao fracasso, como assolado por pragas, o destino cruel, e donde a cineasta, Ramata-Toulaye Sy filma como se fosse o Sol, a própria protagonista, filha desse Sol, o fogo sagrado ali por acaso no vilarejo a queimar, seria paixão? fogo que arde sem se ver, diria Camões? Não à toa o Sol pontue a narrativa em três capítulos. Ali, será onde Banel irá quando se for e finalmente estiver livre, finalmente em casa. Um ser incandescente, brilhante. Um filme de nos enlouquecer.

RATING: 69/100

TRAILER

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REVIEW · CANNES · TIFF · RIO

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