Mi Iubita, Mon Amour

MI IUBITA, MON AMOUR, meu amor… confesso que estou apaixonado. Noémie Merlant faz isso: quase dois anos depois dO RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS, ela reúne um punhado de atores, ela própria e Gimi Covaci, para fazer cinema francês e cinema romeno e nessa fronteira, între iubiri, entre les amours, nos conquistar nesse dueto verdadeiro, um filme de ambientes, de rostos e corpos e sobretudo de palavras e suspiros. Poucos dias aqui e ali, donde tudo vai acontecer e nada acontece, simples assim, como na saga dos vários ANTES de Linklater, outra história de boy meets girl, outro filme aos amores com seu texto, os diálogos tão sinceros, tão apaixonantes, um pingue-pongue para nos arrebatar, “nouvelle vague” diriam os franceses, “gipsy family” diriam os romenos, mas quem se importa? Porque tudo nesse filme é amor, o prazer é antes de tudo o prazer de estar junto e para nós, de assistir dois mundos tão estranhos se encontrarem, assim do nada, talvez para sempre.

Há um ar muito real (dos romenos) e ao mesmo tempo muito literário (dos franceses) nisto, sabores de um verão no Mediterrâneo, de peixe assado na fogueira em Bucareste, todo um encanto genuíno, um cruzamento de palavras e experiências e olhares de um para o outro, bem tímido no início, mas logo num crescente donde é impossível fugir, se esquecer de Godard, de Truffaut, de Rohmer, então só nos resta embarcar nesse trem: no puro cinema de sensações, tão delicadamente filmado que, até impressiona ser um filme de estreia e, sim, “a primeira vez é importante, porque é única” – essa história idem.

O que se vê na tela é frescor, algo nunca experimentado: aqui não só Gimi Covaci atua (e co-escreve), mas também toda a sua família, o pai, a mãe, o irmão. Então, o trecho “MI IUBITA” é literalmente vídeo de família, só que ficção, pura ficção, filme para observar o ser humano em seu próprio habitat, nos costumes e tradições, na festa cigana e na conversa de cozinha. Um esquete donde a vida acontece com seus ritos de passagem, bebedeira, insucessos, você até esquece que é filme durante o jantar. A impressão é assistir uma família e suas bagunças, como se fosse uma das meninas ali na sala, talvez como Cristi Puiu o tenha feito em SIERRANEVADA, porém menor, bem menor, porque não é esse o foco.

O foco é a paixão, o calor, o momento, talvez um beijo roubado… então começa o trecho “MON AMOUR” e, de fato, uma história de liberdade, imediatismo, impulso. Em nota, a cineasta disse que o filme não custou nada e de fato parece somente onze amigos e alguns dias num carro, mas a forma como se filma, a sensação plena de liberdade – talvez uma das cenas de sexo mais bonitas já feita – e, ao redor, todas as noções de pertencimento, meio social, destino, intimidade e consentimento, isso filmado com as devidas pausas, o silêncio e o peso de certas ações, nossa – não há palavras para descrever. Então ficamos com cada cena, até a última cena. Noémie ali conosco, mesmerizante. É amor que chama essa lágrima que cai?

RATING: 81/100

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REVIEW · CANNES

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