Romería


Desde VERÃO 1993, Carla Simón avança pelo cinema como fosse uma procissão íntima, lenta e obstinada, ali andando por tantos verões, campos e casas herdadas para recolher fragmentos de afeto pelo caminho. Outrora em ALCARRÀS, essa marcha ganhou corpo coletivo, tornou-se canto partilhado, memória encarnada em terra e trabalho, mas agora, na própria ROMERÍA, o percurso se recolhe novamente e retorna ao gesto essencial, como quem chega ao destino depois de uma longa caminhada, os pés marcados e o coração em vigília. A sensação é de romaria laica, de saudade donde cada imagem parece seguir o ritmo de uma canção antiga que fala de partir, de pertencer e de continuar mesmo quando já não se sabe para onde. Então, entre os personagens, caminhamos pela homenagem, a escavação afetiva e aceitação serena daquilo que jamais poderá ser plenamente reconstruído, mas ficou de alguma forma. Em película, ao menos.

Diferente dos filmes anteriores, esse desloca-se para um terreno ainda mais frágil e menos nomeável: não a infância observada à distância nem a comunidade sustentada pelo gesto coletivo, mas a história interrompida dos pais, marcada por amor, liberdade e devastação silenciosa da heroína e do HIV nos anos 80. Em Vigo, cidade de rios, estaleiros e bairros em suspensão, a câmera não se organiza como investigação, mas se aproxima hesitante: a protagonista caminha entre relatos truncados, versões que não coincidem, cartas e diários que iluminam apenas por instantes, sabendo que nenhuma narrativa será suficiente. De fato, não é, mas se detém nesse intervalo onde o passado não se fecha nem se explica, apenas reaparece nos restos, como quem encontra pelo caminho marcas de uma paisagem que já não pode ser refeita.

Assim, como em toda romaria, a cineasta anda sem promessa de redenção. Não há subida que leve à verdade, nem chegada que traga resposta plena. O que existe é o trajeto-filme: a caminhada entre espinhos e pedras, onde se deixam pelo chão restos de culpa, perguntas mal formuladas, desejos contraditórios… a memória, aqui, não purifica, mas pesa, arranha, cansa… com ela, as imagens seguem como os romeiros: pedem com os olhos, os gestos mínimos e algum silêncio. Não exigem milagre algum, mas eles continuam. E nesse andar entre devoção e desgaste, entre fé e ruído, entre íntimo e profano, o filme aceita que lembrar não é esclarecer, mas sustentar o peso do que não se resolve.

Há, ainda, nesse percurso, uma consequência inevitavelmente política. Ao voltar a uma geração atravessada pelo estigma do apagamento, o filme reabre histórias que durante décadas foram empurradas para fora do quadro. O faz sem nostalgia ou qualquer ajuste de contas tardio. A narrativa tão somente olha para esses pais (e para tantos outros) sem absolvição nem condenação, restituindo-lhes somente algo raro: o direito à complexidade. São tão jovens que amaram com intensidade, viveram com pressa, erraram, desejaram e acabaram pagando o preço desmedido por isso. Só isso.

Então, se VERÃO 1993 elaborava o luto a partir daquilo que não se compreende e ALCARRÀS transformava a perda em coro, ROMERIA avança para outro gesto: o da inscrição. Aqui, lembrar já não basta, é preciso nomear, registrar, reivindicar um lugar. Ao acompanhar uma filha que exige que a causa da morte do pai seja dita, que o vínculo seja reconhecido, que o arquivo exista, o filme desloca a memória do campo da contemplação para o da ação. Não se trata mais de reconstruir o passado, mas de escrever a partir dele, assumindo suas falhas, seus buracos, seus silêncios. Ao final da travessia, a romaria não termina em revelação, mas nessa afirmação: o direito de dizer “eu gravo”, “eu escrevo”, “eu sigo”. O cinema de Carla Simón chega, assim, a um ponto raro, aquele em que a homenagem não paralisa, mas funda um futuro.

Por Mauricio Ribeiro

RATING: 76/100

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REVIEW · CANNES · SAN SEBASTIAN · RIO

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