Megalópolis


De um sonho, de um surto, de uma extravagância delirante, a utopia de Francis Ford Coppola encontra seu ocaso de um modo triunfal: ame ou odeie, louve ou lamente, o cineasta crava sua lança na história e edifica seu próprio SPEED RACER/THE ROOM particular, um cinema que remete aos malabares de MOULIN ROUGE (Baz Luhrmann), ao artificialismo dA GRANDE BELEZA (Paolo Sorrentino) e, no entanto, transcende, pois é inclassificável, como uma fera selvagem que desafia os limites da própria razão. A urbe colossal em cena evoca a distopia de Gotham City/Metropolis, salpicada por efeitos dignos de NOSSO LAR. Adam Driver está desastroso, sua química com Nathalie Emmanuel inexistente – mas nada disso importa, pois a estética é tão exagerada, tão desavergonhadamente kitsch, tão impregnada de um espírito oitentista, que o resultado resvala no sublime. E por tal espetáculo, o público deve assistir/recompensar, como quem testemunha um evento social épico, um marco cinematográfico, um divisor de águas. Sim, e apesar de tudo, “this is cinema”, diria Scorsese, ou “pão e circo”, diriam os romanos.

Então, no ventre da batalha de “produzir cinema”, Coppola se atira aos leões, tal qual um gladiador em seu embate final, desferindo este último golpe febril – um filme doentio, à espreita a cada passo da inépcia, mas que, em rompantes, despe a armadura para mergulhar em aventuras arriscadas, em deslumbres inesperados. Beleza, no limite, como um acrobata que desafia as leis da gravidade. E sob pilhas de lantejoulas reluzentes, MEGALÓPOLIS se ergue como um megazord colossal sobre o próprio (ato de) cinema, espetáculo absoluto em sua forma mais plena.

E não à toa tamanha ousadia: a certa altura, a projeção se interrompe para que um ator suba ao palco e entreviste o protagonista – um ato impensável de cineteatro, um rasgo de insanidade digno de David Lynch. Vale pela surpresa, embora todo o resto se equilibre claudicante na corda-bamba do fracasso épico. Ali, no vértice do risco, Coppola paira no alto, seu cinema reduzido a um fio de ar, um sopro breve entre a queda e o voo, uma (tentativa?) de suicídio artístico, um delírio de titanismo, um desafio aos deuses (ao público? aos produtores? aos exibidores?), mas que segue assim gigantesco, no triunfo e no desastre.

De APOCALYPSE NOW até este momento, Coppola, como um titã que volta repetidamente ao abismo, se lança exaustivamente pelo tema da obsessão humana, a busca incansável por um poder que consome tudo ao seu redor. Ele criou, repetidamente, a mesma história: a de um homem que, cegado por sua própria ambição, se afunda na escuridão, guiado por nada além de sua fome de controle e destruição. E, agora, ao se vestir na pele do arquiteto vivido por Adam Driver, ele se torna o próprio protagonista de seu épico de excessos, um monstro criado à imagem e semelhança de sua visão. Um filme que se reconfigura constantemente, mutante como um ser mitológico que renasce das cinzas, desfigurando-se e remontando-se ao longo de sua própria narrativa, uma criatura sem fim, que desafia qualquer tentativa de entendimento. Seu cinema se faz uma gigantesca arena de esperanças desfeitas, onde as ambições e fracassos se misturam, onde a coerência foi sacrificada no altar da grandiosidade e do espetáculo. E, como num grande Coliseu, o que resta é um desfile de ideias distorcidas, ecos de uma Roma antiga que se dissolve na ficção de um futuro incerto, enquanto Coppola, o mestre de cerimônias, gira sua roda de apostas, apostando tudo em um show que flerta com o caos. A tragédia? O cineasta, em sua grandiosidade, esquece de que o público não é um mero espectador de sua própria loucura, mas um gladiador que também participa dessa batalha, cujos aplausos ou vaias determinará o verdadeiro destino de sua criação.

RATING: 69/100

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FILMES · CANNES · TIFF · SAN SEBASTIAN · MOSTRA SP

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