O Senhor dos Mortos


Cronenberg, uma vez mais, mergulha nas entranhas da morte, profanando os corpos na incessante busca pelo grotesco e visceral. Como em O SENHOR DOS MORTOS, ele nos guia por um caminho repleto de carne putrefata, ossos desfeitos, a pele apodrecida, onde cada cena é testemunho da decadência da matéria, capturada ali com clareza quase doentia pela lente 8K. Seu filme exala uma frieza esmagadora, um tom cinza e cancerígeno, como se estivéssemos sendo lentamente engolidos por um processo de decomposição, até o ponto em que a podridão se torna um abismo sem retorno. É uma obra que nos consome, nos sufoca em um mistério insondável, alimentado pelo fascínio mórbido do Body Horror, mas que, apesar de sua aparente profundidade, não vai além de uma ideia que se perde na obsessão por teorias conspiratórias.

Nos rituais funerários, é costume negar a realidade da morte, ocultando os corpos e disfarçando a decomposição. Cronenberg, porém, toma o caminho oposto. Ele cria um “cinema pós-morte”, um espaço onde a corrupção do corpo não é apenas aceita, mas celebrada. Em sua obra, os túmulos são abertos, os mortos são revividos, ou ao menos revisitados, e suas imagens – apodrecendo, decaindo – formam o coração do filme. Seu protagonista, um homem obcecado pela memória da esposa falecida, também se vê imerso nesse processo de profanação. Ele se move entre os cadáveres, buscando neles a presença da esposa, como se, mesmo na decomposição, ela ainda estivesse ali, de alguma forma. É como se ele tentasse reescrever o ciclo da morte, criando sua própria narrativa, sua própria maneira de continuar a história, recriando fantasmas em busca de conexão. Para ele, a carne em decomposição não é um fim, mas uma meio para algo além, talvez uma forma de reencarnação emocional, um vínculo que persiste mesmo através da corrupção.

Para aqueles que creem, essa relação talvez soe como vida após a morte, mas, para o protagonista, o que se desenrola é algo mais biológico, mais terreno. Ele não busca o paraíso, mas uma relação silenciosa, um tributo sem palavras, onde a podridão da carne se torna a única forma possível de conexão. Isso é, sem dúvida, pervertido, mórbido, grotesco, mas para o homem que se afoga na dor da perda, é uma tentativa de escapar do desespero, de encontrar uma forma de lidar com a perda, de transcender o abismo da morte. O argumento, nesse sentido, se torna um exercício de dor, uma catarse que se manifesta não em palavras, mas na podridão das imagens.

Tornou-se quase comum acusar Cronenberg de não saber filmar ação: ele sabia, mas esqueceu, e agora expressa isso através de palavras. Longe de ser um erro, essa transição revela um movimento de autossuperação: se antes VIDEODROME, A MOSCA e EXISTENZ eram investigações vorazes sobre o corpo, a virtualidade, a técnica, e até mesmo em CRIMES DO FUTURO, o cineasta ainda buscava explorar essas questões de forma tangível, agora ele se entrega a algo mais profundo e discursivo. A maquiagem protética e os malabares cinematográficos cederam espaço para um discurso mais denso, uma narrativa de suspense que se contorce em torno do gênero de espionagem, com uma espiral crescente de paranoia e teorias conspiratórias. O roteiro agora se torna o principal veículo para o que antes era uma experiência visual e visceral, tentando preencher um vazio existencial que não pode ser filmado. Cronenberg abandona a decomposição física do corpo para adentrar no campo da verborragia incessante, um debate filosófico de boteco que, embora tente disfarçar sua falta de ação com profundidade, acaba se tornando uma exaustão. As palavras se tornam um peso, uma carga que se arrasta por entre os diálogos intermináveis, enfraquecendo o impacto da história e dispersando a atenção do público. A repetição do discurso, que em teoria busca criar uma atmosfera de tensão e reflexão, termina por nos consumir, nos levando a um cansaço quase letal. A morte não é mais figurada nos corpos, mas na própria narrativa, que se arrasta até a exaustão, assim como a decomposição dos corpos que ele tão bem retratava, agora se refletindo na decomposição da própria história.

RATING: 66/100

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CANNES · TIFF · MOSTRA SP

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