Effacer L’Historique


A vida como ela é, ou em algum ponto se tornou pelo zapzap: Uma comedia de absurdos, de globalização descontrolada, uma epifania social que parte de um subúrbio francês e vai às Ilhas Mauricio em busca dos dodôs da era digital, mal sabendo que eles próprios – os protagonistas – são os dodôs prestes a serem extintos diante da velocidade dos bits e bytes. Três personagens, três histórias, três loucuras cibernéticas, uma mulher chantageada por uma sextape equivocada, um pai aflito com o bullying da filha, a outra exasperada pelas notas que recebe no Uber, três vizinhos desajustados diante da complexa artimanha da inteligência artificial e donde o público – meio cúmplice de cada esquete – só resta rir e usufruir, um olho na tela, o outro no celular porque o meme do face é urgente e não pode esperar.

Um filme sobre três pessoas solitárias, que vivem perto e se ignoram, mal se falam. Elas não conversam entre si, exceto por chats, isso num mundo de tantas outras pessoas aonde ter 10.000 amigos (e nenhum) é corriqueiro, donde tantas divisões sociais, políticas e econômicas estão ligeiramente conectadas, então nessa rede, donde é comum pressionar a tecla 1 para, ou a tecla 2 para, você encontra uma voz humana, uma história sobre solidariedade em um mundo cada vez mais individualista, isso usando as próprias ferramentas eletrônicas que isolam para divertir.

Sim, um cinema de (fácil) consumo, bem sessão da tarde, mas que armazena em sua projeção (ou pela porta dos fundos?), várias senhas e usuários, tantos códigos a mercê de hackers, tecnologia e hospício, um conto que nos leva à nuvem, bem solto, bem leve, muita bobagem, muito supérfluo. E ali, já no vício dessas casualidades, os cineastas Benoît Delépine & Gustave Kervern introduzem o vírus, a pequena intriga social na programação. Você nem percebe, rindo à toa com todo esse caos, mas no fundo entende, talvez com culpa, mas fazer o quê? A história não pode ser deletada, os protagonistas até tentam em servidores longínquos, mas é impossível. O dodô está extinto. E assim caminha a humanidade, cada um com seu celular, teclando e teclando.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela Wild Bunch, incluso a entrevista com os diretores
RATING: 74/100

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REVIEW · BERLIM

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