Um Lindo Dia na Vizinhança


Por Eduardo Benesi

Longe de ser indecoroso ao agora ou muito perto disso, UM LINDO DIA NA VIZINHANÇA é uma fábrica de otimismos encapsulados da marca “feel good”. O que me chama nessa fragrância amistosa é uma certa passividade empática frente à fragilidade alheia; mais do que nos acolher, o longa parece prestar um colo auditivo ao distúrbio-ambiente. Uma história ora discreta, com uma existência menor que a sua importância, uma maquete colorida que move inquilinos anônimos do lifeness contemporâneo. Em outros instantes transborda uma universalidade que toma de assalto um mundo subjetivo inteiro, canta para nós como se oferecesse um band-aid, Aliás eu poderia dizer que nesse filme o canto poderia ser uma metáfora para cortinas que abrem e encerram histórias.

Não há frases geniais, há um psicologismo raso de tão inofensivo, mas reparem na intenção genuína nos olhos de Tom Hanks quando profere frases motivacionais aos entrevistados. Nessa hora, pouco me importa o que o personagem diz, o verbo é conjugado na intenção da palavra, não na palavra em si. Bonito quando algum personagem está atento à novela radical que é o outro. Ou aqui de fora olhar um protagonista que parece não se apropriar de seu batismo funcional. Fred Rogers fala baixo para que o outro ganhe volume, ajuda os outros a se curarem de suas infâncias, enxerga o trauma sem a rigidez do estudo moral. Consegue ser um homem benevolente e alheio a qualquer densidade.

Existe uma certa modalidade de trama que precisa do raso para ficar em pé e é assim que eu passo a não esperar um mergulho de cabeça e, ao invés, escolho boiar no azul, diante de uma obra tímida em ser incrível, mas absoluta de si, de sua (pouca) missão ao nos dizer que a infância não envelhece (saudade nenhuma de mim).

Correm as crianças enquanto engatinhamos. Corre um filme que não usa do alarde altruísta e então prefere ser apenas uma boa intenção. Faz questão de fazer do silêncio um lindo cílio dos olhos, olha perto dos rostos e com ternura, olha com bons ouvidos a ponto de nos convencer de que o detalhe é sempre o detalhe de alguém.

RATING: N/T

TRAILER

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FILMES · TIFF · RIO

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