Os Mortos não Morrem


Cannes começa pelo fim: Um filme B de gênero minimalista, um survival de zumbi underground, uma distopia de forte cinismo social, que flerta com George A. Romero e John Carpenter, mas o faz de maneira muito particular, longe da MADRUGADA DOS MORTOS, dA NOITE DOS MORTOS VIVOS, mesmo dA CIDADE DOS AMALDIÇOADOS, porque aqui, o arrepio vem do dia-a-dia, o suspense é tenuamente construído ao longo dos últimos anos, seja por eleições apocalípticas, líderes hecatombes ou políticas “creepy”. Tudo caminha para o “Juízo Final”, mas quem se importa se isso coloca o “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” ou “Make America Great Again”? Sim, é o fim, acaba mal, mas é tão, tão legal, que quem se importa?

Então, Jim Jarmush repete as questões filosóficas de AMORES ETERNOS, e o faz não com mortos-vivos, mas com mortos-eleitores que assistem impassíveis as notícias alarmantes, a destruição do planeta, isso na TV, no rádio, a inversão dos polos magnéticos, o derretimento das calotas polares, o sumiço dos animais, os pássaros, os gatos, as vacas, até o frango que nos apresenta ao narrador-ermitão-profeta do cataclisma. Todos sabem que OS MORTOS NÃO MORREM, há sinais evidentes, referências claras, mas “talvez seja um animal selvagem ou vários animais selvagens”, o cineasta se diverte com todos os clichês possíveis, faz piada, toca a canção de Sturgill Simpson exaustivamente.

Um cinema pipoca de abstração e vazio, que raia com a calmaria da pacata Centerville apresentada frame por frame, o café, o drive-in, o posto de gasolina, por fim a pequena Delegacia, e a cada lugar, seus personagens, um exaustivo elenco. Ali, o tempo parou, os celulares desligaram e nunca anoitece (mesmo a noite, quando chega, é filmada em “Noite Americana). Há interferências, sugestão para o caos, mas os personagens se mantem terrivelmente calmos (o que rende uma das melhores cenas com Adam Driver). Os diálogos são carregados de elegância e espírito, quase como personagens de Wes Anderson. Pena que a história caminhe para um trágico fim (e não é spoiler: os próprios protagonistas assim o repetem ad infinitum).

Sim, há certo absurdo, quase nOS LIMITES DO CONTROLE e mesmo “fora do roteiro”. Por fim, os zumbis surgem da metade da projeção adiante, loucos por CAFÉ E CIGARROS, Chardonnay e senhas de wi-fi. São eleitores de Trump? De Bolsonaro? O PT destruiu a vida deles? A pergunta fica na ironia, e não pelo fato que OS MORTOS NÃO MORREM, mas que os vivos não vivem (e STAR WARS é uma ótima ficção, fica a dica).

RATING: 73/100

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REVIEW · CANNES

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