Corações Cicatrizados

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Vagamente baseado nos últimos anos de Max Blecher, incluso os desalentos que aparecem, vez ou outra, nos intertítulos, Radu Jude segue os rastros de AFERIM! (e, talvez, O ESCAFANDRO E A BORBOLETA e A MONTANHA MÁGICA) para nos contar a historia de Emanuel, um jovem que se vê diagnosticado com tuberculose óssea (ou doença de Pott), isso em 1937, em algum sanatório aos pés do Mar Negro. E ali, confinado numa cama, o protagonista, o público, a história, se vê certa poesia, a filosofia, um pouco de politica, talvez um flerte com o cinema de outrora, enquanto a projeção avança e o tempo se esgota.

Um filme (literalmente) estático: A câmera inerte. O plano acadêmico. A projeção em 35mm… E nesse “modus operandi” tão minimalista e engessado na escola romena, aos poucos se nota os mínimos detalhes, uma vitalidade inesgotável, mas também o prelúdio do fim, a dança na beira do abismo, tão eminente, tão fugaz, tão urgente, enquanto lá fora o país ferve diante de uma (possível) guerra e fascismo.

O tom, parece, é meio embriagado, um pouco estridente e desorganizado, não tão calmo e metafórico, às vezes melancólico, quase no limiar do drama, mas sem choro, nem vela, porque resta, ali, a coragem e a alegria daqueles que preferem o exercício intelectual, a razão diante dos fatos. Na tela, se vê o pus, o abcesso, o vômito, as pernas amputadas, o clorofórmio, a morfina, a convalescência… A morte acariciando tudo ao redor do protagonista, seu abraço enclausurado no tédio, suspirando, sussurrando, sobrevivendo, enquanto todo o resto apodrece e seus ossos somem.

Sim, “a impressão é de que nada é real”, quase um sonho diante da bela paisagem, o ambiente boêmio, a música, os livros, a vitrola que toca e toca e toca, mas, todavia, nada se sente porque um fino tecido cicatricial, tão insensível e injusto, dissimula o que de fato é: Uma realidade esmagadora, quase de cortar o coração nesses quartos obscuros, nas salas de operação, os corredores, os cobertores, tudo tão esterilizado, frio e aterrorizante.

E assim, imersos no silêncio, na solidão da sala de projeção, o público se vê diante da vida e da morte, a miséria e o disparate, a escuridão e o carnaval. Essa é, afinal, a efervescência dos anos 30 às portas de Hitler, donde a Romênia não é exceção. Exceção, talvez, seja a escrita de Blecher, o cinema de Jude. Ame ou deixe.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela Beta Cinema, incluindo a entrevista com o diretor e notas de produção
RATING: 77/100

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LOCARNO · MOSTRA SP · REVIEW

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