
Cantai umA ODISSEIA: os versos de rapsódia, rumores, rotas e regressos, senão as reminiscências que o tempo jamais esqueceu… entre bumbos e batidas, Christopher Nolan tão só clama pelo épico, mas o faz pela lama, encharcado de maresia, seus olhos voltados para o horizonte, para JASÃO E OS ARGONAUTAS, as criaturas de Ray Harryhausen, um cinema em que monstros nasciam das mãos de artesãos. Não o faz como culto. Pelo contrário, lhe arranca o verniz da fantasia para só devolver pele, sangue e gravidade. O manto outrora fiado é desfeito e novamente tecido. Então, um filme-cavalo de madeira. Oferenda para alguns, ardil para outros. Ame ou odeie, pouco importa. Dentro dele repousa uma ideia de cinema que já parece perdida: onde tantos encontraram fantasia, ele descobre tragédia. Onde outros ergueram espetáculo, ele finca os pés na terra, no sal, na carne e no peso da História.
Tudo está aqui. Os grandes cantos. O Ciclope e as Sereias. Circe e Calipso. Escila e Caríbdis. O Hades. Ítaca. O arco retesado. O cavalo de madeira… mas os deuses, esses caíram: Atena talvez jamais tenha descido do Olimpo, talvez seja apenas a voz da consciência, a culpa que insiste, o delírio que impede Odisseu de sucumbir. As divindades já não se travestem de mendigos, são eles os mendigos. Calipso não aprisiona por magia, aprisiona porque ama. O Hades deixa de ser um reino e se converte em remorso. As Sereias não encantam pelo sobrenatural, mas pelo desejo. Escila e Caríbdis deixam de guardar um estreito para habitar as escolhas impossíveis. O monstruoso perde as presas e ganha um rosto.
Tudo o que parecia divino, portanto se revela humano. Tudo o que parecia fantástico se revela minimalismo. O maior perigo nunca esteve no mar, nem nos monstros, nem na ira dos deuses. Sempre esteve no homem. A verdadeira odisseia não atravessa ilhas ou tempestades, mas, sim, a consciência e é nela que o herói naufraga, é dela que tenta regressar.
Se os deuses tombaram, a câmera também abandona esse Olimpo. Nolan procura os rostos antes de procurar paisagens. Sim, há mares infinitos, muralhas ciclópicas, desertos de areia e sal, palácios erguidos para desafiar o tempo, mas tudo se resume apenas para emoldurar esse homem. Assim, o close invade o épico. O suor vale mais que o horizonte. Há sempre alguém ao fundo, alguém perdido na multidão, alguém diminuto diante da imensidão, porque a escala nunca pertenceu ao cenário e sim à fragilidade humana.
A trilha de Ludwig Göransson tampouco procura divinizar essa jornada. São bumbos que contam o tempo (toc!), tambores que anunciam a guerra (toc, toc!), batidas que lembram um coração incapaz de desacelerar (toc, TUM!). Quando se calam, resta o verdadeiro coro de uma epopeia: o vento, o mar, a madeira rangendo, o metal contra a carne. Não há melodia para confortar o herói. Há apenas o som e FÚRIA (DOS DEUSES?).
É por isso que o elenco jamais interpreta os arquétipos e, sim, a gente: o olhar carregando o peso dos anos, os pensamentos escondendo uma guerra, os gestos denunciando o passado… não existem papéis pequenos porque não existem vidas pequenas. Mesmo quem atravessa a tela por instantes, cada um deixa essa impressão de carregar sua própria odisseia. E assim, Nolan constrói um Olimpo donde a grandeza já não pertence aos deuses, mas aos atores.
Cantai, então, a última estrofe. Não a dos deuses, nem a dos monstros, tampouco a dos reis. Cantai o homem que regressa diferente daquele que partiu. Porque toda viagem devora um pouco de quem somos. Toda memória inventa outro passado. Toda odisseia exige um preço. Nolan paga o seu ao destecer o mito e fiá-lo novamente. E, quando o último tambor silencia e o mar enfim se aquieta, o que permanece não é o espetáculo. É senão, o homem. Sempre o homem.
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 81/100

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