O Fim da Rua

O FIM DA RUA, o fim do mundo, o resto é JUMANJI… O mesmo parquinho, o mesmo brinquedo que Spielberg outrora nos trouxe, mas agora com o encanto desgastado de uma atração de segunda mão, um daqueles trens-fantasmas de quinta categoria em que a cortina já perdeu a cor, a engrenagem geme e o monstrinho vem pelas costas fazer buuuh, buuuh, arrepia o cangote, ouriça os pelos e volta para a escuridão. Só que o fantasma cresceu: tem dentes, tem patas, e a brincadeira de quintal ganha escala de mundo perdido… então, bicho corre atrás de gente, gente corre atrás de esconderijo, esconderijo vira armadilha, armadilha vira banquete. Pão e circo, sim, mas pão de gente, carne fresca e carcaça ao sol; circo jurássico, a grande arena da caça, do caçador e do caçado. Um recreio de pique-esconde em que ninguém sabe mais quem conta, quem corre, quem se esconde ou quem será encontrado. O tabuleiro se abre, as peças se espalham, e a velha brincadeira começa: corre, corre, corre, antes que o buuuh chegue nos cangotes.

Pois essa é a diversão: David Robert Mitchell pega uma rua suburbana dos anos 80, com suas casas, seus quintais, suas famílias e sua rotina de vizinhança, e a desloca (literalmente!) para um mundo pré-histórico. A premissa é simples, quase infantil na própria fantasia: o bairro inteiro muda de lugar e, com ele, muda também a escala do cotidiano. O jardim deixa de ser jardim, a rua deixa de ser rua, a casa deixa de ser abrigo. A cerca que separava um quintal do outro passa a separar a presa do predador; a garagem vira esconderijo, a calçada vira rota de fuga, a casa vira toca. O que antes servia para brincar, morar e circular agora serve para caçar, fugir e sobreviver. A vizinhança continua (n)a mesma, mas as regras do recreio mudaram.

Como aventura, funciona. O cineasta sabe manter o filme em movimento, alternando perseguições, descobertas e pequenos perigos com a leveza de quem conhece as regras do jogo. O problema surge quando os personagens começam a falar… os diálogos são ingênuos, simples demais, frequentemente incapazes de acompanhar a imaginação visual do filme. O pai, sobretudo, é um mero botão: aperta-se e ele reage, aperta-se de novo e ele explica, aperta-se uma terceira vez e ele toma a decisão que a história precisa. E o roteiro, escrito pelo próprio Mitchell, comete ainda um pecado curioso: planta, planta e planta. Elementos aparentemente banais aparecem no começo, voltam mais tarde, reaparecem quase discretamente, até que, no desfecho, tudo se encaixa como se estivéssemos diante de uma arquitetura engenhosa. A ideia (parece?) inteligente, mas a coincidência é que pesa.

Quando chega à direção de arte, porém, a brincadeira ganha corpo. O bairro parece uma rua da Universal Studios transplantada em (outro) parque de diversões: casas perfeitamente reconhecíveis, quintais, garagens, carros, cercas, calçadas e aquela arquitetura doméstica que se conhece tão bem, agora invadida por um mundo que não deveria caber ali. É uma boa inversão do espetáculo de JURASSIC PARK. Em vez de levar pessoas para um lugar criado para os dinossauros, o roteiro leva os dinossauros para um lugar criado para pessoas.

Os efeitos visuais acompanham essa lógica. O CGI nem sempre convence como matéria, movimento ou peso, mas talvez funcione justamente porque o filme nunca abandona essa aparência de parque chinfrim, de brinquedo de feira, de atração que promete mais do que consegue entregar. Um dinossauro digital pode parecer menos convincente do que um bicho de carne, osso e fotogramas, mas, dentro dessa fantasia de recreio, encontra seu lugar. É quase como se o filme aceitasse a própria artificialidade e dissesse: não olhe tão de perto, a brincadeira é outra, taí a graça: essa vontade deliciosamente mambembe de recuperar um cinema em que o mundo seja um quintal, o quintal seja selva, a casa seja refúgio e o monstro atrás da porta ainda basta como motivo para sair correndo. Mitchell filma o apocalipse como quem monta um brinquedo no chão da sala. As peças não são perfeitas, algumas parecem carcomidas, outras faltam, mas o tabuleiro continua convidativo.

Afinal, no fim (da rua?), talvez seja essa a intenção de uma boa “Sessão da Tarde”: lembrar que o cinema também pode ser uma brincadeira de quintal, imperfeita, improvisada, intimamente infantil e ainda assim capaz de nos fazer correr. David Robert Mitchell não reconstrói o assombro de Spielberg, nem parece especialmente interessado em fazê-lo. Prefere somente o brinquedo, esse tempo de inocência para nos fazer acreditar que uma rua pode virar selva e um quintal, mundo perdido. E, quando tudo termina, as luzes se acendem, o mundo pré-histórico desaparece, os dinossauros voltam para dentro da tela e a rua volta a ser rua, por alguns minutos, porém, a esquina deixa de ser esquina. E isso, para uma brincadeira, já é bastante.

Por Mauricio Ribeiro

RATING: 72/100

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FILMES

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