Petite Maman

É impressionante o que Céline Sciamma faz com tão pouco, quase nada, 70 minutos de filme e só. E, no entanto, tal cinema é gigante, sua simplicidade nos assombra, uma história de muitas camadas que cresce discretamente pelo caminho, como se fosse a reforma de uma casa antiga e, ao descascar um papel de parede, se encontrasse inesperadamente outro motivo por baixo, e depois outro relevo, e quanto mais profundo o cavoucar, mais e mais texturas e assim sendo sem fim, o filme nesse mesmo transe em loop infinito.

E ainda é uma ideia muito simples: o encontro e a amizade de uma menina com sua mãe, quando criança. A narrativa feita como se houvesse algo mágico, talvez outra dimensão, memória ou imaginação e todos reunidos em torno da árvore genealógica (ou essa cabana de criança?). O galho a galho sendo posto pela avó, a mãe, a filha, então a chuva destrói, o tempo apaga e de novo, vem a avó, a mãe, a filha… e assim, a cineasta filmando e construindo sua casa de meninas, lá na floresta, lá longe ONDE HABITAM OS MONTROS. Ou seria um sonho? uma lembrança? O luto? Não importa… a mãe olha pela janela triste, a filha abraça a mãe triste e a jornada continua ad eternum em nossos corações.

Como máquina de intimidade, não tem limites. Quem sabe seja pela (nova) abordagem à história de viagem no tempo. Uma viagem íntima onde a questão em jogo não é nem o futuro, nem o passado, mas o tempo compartilhado. Uma viagem sem máquinas ou veículos porque o próprio filme é a máquina e, mais precisamente, sua montagem. Um corte teletransporta os personagens e os aproxima. E dessa forma, a ilusão de cinema mágico se personifica com extrema precisão – você sente, é completamente inesperado. Então, o filme vai surgindo aos olhos da menina – o nosso também – em um playground muito lúdico, todo feito nos truques primitivos do cinema e filmado inteiramente em estúdio donde os mecanismos são eternos. É uma ideia estranha, que um filme deva caber dentro de uma caixa que você possa adentrar por uma porta, mas a brincadeira ao fazê-lo é trazer justamente o cenário como outro personagem, senão outro lugar de memória onde os personagens, passado e presente, possam se fundir.

E no fundo, todo o filme foi pensado como uma experiência compartilhada, concebido para aproximar as pessoas, oferecendo as mesmas oportunidades de envolvimento e sensações, tanto para jovens como para idosos. De novo, a ideia do playground comum, por assim dizer, ali não somente para as protagonistas, mas também ao público que – pela empatia – também será transportado ao filme-floresta, e com ele seus pais, seus avós, o filme tentando se (re)inventar entre gerações e corpos e se fazer numa grande experiência física coletiva. “Eu venho do caminho atrás de você”, diz a menina… na verdade todos nós.

RATING: 84/100

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REVIEW · BERLIM · TIFF · SAN SEBASTIAN

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