Swimming Out Till The Sea Turns Blue


A colheita que Jia Zhangke filma em algum momento, aparece quase no finalzinho. Antes ele semeia histórias, memórias, reminiscências… e a cada cena, vai plantando um sorriso, semeando uma lágrima, escavando o que a China tem de mais profundo. Avós. Pai. Mãe. Filhos. Seu filme é cheio de pessoas, a câmera muita atenta nelas, muito Eduardo Coutinho para que O JOGO DE CENA seja absoluto e no momento certo, quando o público finalmente mergulhe nessas vidas, ele possa nadar, nadar e nadar até o mar ficar completamente azul.

As pessoas ali vivendo suas vidas como rios em direção ao mar, viajando com suas cargas em direção a algum lugar azul e claro à distância. Tal cinema-paisagem tenta entendê-los e o filme se faz manuscrito nos dizeres, muito discreto e contido, tão casual quanto as nuvens, quase feito de sucata e artesanato, filmado em linhas tortas, em cores esmaecidas. É sempre um simples retrato de uma notória figura. Alguém qualquer, contando algo. Isso feito na província de Shanxi donde algum dia Jia Zhangke nasceu e hoje filma esse encontro, uma reunião de celebres escritores e estudiosos chineses que, juntos, nos arrebatam em uma “sinfonia” de 18 capítulos, tal qual um romance clássico, toda a enciclopédia da sociedade chinesa desde 1949. Então, um festival literário contado através das memórias do falecido escritor-ativista Ma Feng e dos testemunhos de três grandes escritores ativos até hoje: Jia Pingwa (nascido nos anos 50), Yu Hua (nascido nos anos 60) e Liang Hong (nascido nos anos 70). Cada escritor contando suas próprias vidas e carreiras literárias, o que permite ao filme tecer um bordado espiritual de 70 anos de uma pátria.

Também um documentário que flerta com DONG (2006, sobre o pintor Liu Xiaodong) e INÚTIL (2007, sobre a estilista Ma Ke). Portanto o encerramento de uma trilogia- muito autoral – de artistas, tal o desejo do cineasta em filmá-los, suas artes e a beleza através dessa experiência. E isso num contexto (fetiche?) de rápida urbanização, os fluxos migratórios, o declínio das áreas rurais em detrimento das metrópoles. Os jovens indo, os idosos voltando. Jia aqui e ali confia demais nos escritores-narradores, vai circundando o tema e as gerações, a arte revolucionária, a revolução cultural, depois a abertura, por fim o presente. Do jovem ao velho e, de novo, aos jovens. Ao cinéfilo cabe, senão, a nostalgia.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela MK2 Films, incluso a entrevista com o diretor
RATING: 75/100

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REVIEW · BERLIM

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