O Farol


De Fritz Lang à Murnau, passando por Melville e Jean Vigo até Béla Tarr e Tarkovski, a mitologia marinha adquire sua maior expressão de terror nas mãos de Robert Eggers: THE LIGHTHOUSE é o estranho, o iluminado, o intenso. É Willem Dafoe e Robert Pattinson em algum lugar isolado e desolado. Dois machos alpha em luta pelo domínio de um farol, presos no rochedo, na loucura e nos grogues de uma tempestade aparentemente interminável, os dois envolvidos em um duelo crescente de egos, vontades e forças misteriosas que surgem ao redor e nos engole na ressaca, nos mitos, nesse filme traumático.

Esqueçam o terror, o sobrenatural está na ampla gama de influências, desde os clássicos literários de Herman Melville e Robert Louis Stevenson até os contos estranhos de H.P. Lovecraft e Algernon Blackwood. O diabo está nos detalhes, na fotografia que evoca antigas pinturas realistas de Andrew Wyeth, nos antigos manuscritos de Sarah Orne Jewett, nos guturais dialetos marítimos. O filme está mergulhado em escuridão e atmosfera, no brilho sobrenatural mitológico da luz de uma vela. E naturalmente no farol, esse objeto fálico inundado de luz, que irradia poder e atração, que suga os personagens ad infinitum à loucura, tal qual mariposas no sinaleiro. E é justamente o mistério dessa luz, sempre enigmática e sublime, incrível e assustadora, que nos atrai rumo ao Farol e ao final, nos arrepiando e paralisando pelo brilho inebriante de cada frame, senão o gênio de um cineasta que nos assombra facilmente.

E, curiosamente, enquanto A BRUXA se assume no “feminino obscuro” da exploração do arquétipo da bruxa, THE LIGHTHOUSE vai exatamente ao oposto, ao examinar os impulsos (e labores) sombrios de homens rústicos nos jogos de poder. Na construção do suspense (e nessa disputa de influências), os personagens se dedicam aos mais diversos deveres punitivos, pintando paredes, remendando telhados, transportando carvão, esfregando e polindo metais, servindo a cisterna e abastecendo o farol com querosene. Portanto, um filme sujo, fedorento, tátil, filmado em preto e branco, 35mm e no trabalho braçal, servil e extenuante, e assim o é repetitivamente por lugares agonizantes até a noite de bebedeira, ou na explosão de fúria, mesmo nos extensos diálogos de “quem domina quem”.

Nesse momento, Dafoe surge aterrorizante e hilário. Ele é um mestre expressionista e um Deus antigo. Senão, o próprio fim. Diante dele, o público perplexo estará cego por tal luz. E apequenado e coagido, enquanto a câmera mostra o ator de cima e dominante. A tela em ratio 1,19: 1 – um quadro quase quadrado muito usado no princípio da Era do Som – ajuda a nos enclausurar mais ainda nessa sugestão e claustrofobia, no close-up dos atores, nos olhares expressivos de personagens do cinema mudo. Aí está o terror.

Então, uma sinfonia de desconforto, pelos sons evocativos, as sirenes de berro, as trombetas da nevoa, o tom de provocação sinistra e implacável, o senso de loucura e confinamento, as gaivotas, o maquinário industrial, a chuva, o trovão, o vento, as ondas, os rangidos, e toda essa exaustão, flatulência e pegadas molhadas nas rochas, disso tudo, dessa alienação fílmica, surge uma obra-prima, um grande filme, a loucura e mais nada.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela A24, incluso Notas de Produção
RATING: 96/100

TRAILER

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REVIEW · CANNES · TIFF · SAN SEBASTIAN · MOSTRA SP

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