Any Day Now

Há uma brincadeira de esconde-esconde em ANY DAY NOW, certa euforia, muito sol, uma aparente felicidade que, sabemos, não condiz com o cinema iraniano. Ele abre em campo de flores – “são flores de simpatia”, alguém diz – e daí, existe toda uma construção de momento, quase 20 minutos de cena, de comercial de margarina, música idílica e momentos de gratidão. Sim, tal cinema está repleto de alegria, você vê pela família, é nítido, mas o título ainda martela: “a qualquer momento”, “a qualquer momento”… e o que seria afinal? O filme sugere NÃO HÁ MAL ALGUM, mas você percebe que algo maldoso de fato se esconde, só não sabe o que, nem quando. Hamy Ramezan então filma sua própria história, e o faz nessa brincadeira de morde e assopra, dois filmes, um escondido no outro, e nos mostra o mais feliz deles, um conto de “coming of age”.

Ao público, cabe perceber os pequenos sinais, os truques de cena, a angústia que surge vez ou outra e logo se vai como se fosse apenas um pensamento ruim: uma cena sugere uma casa feliz, a mãe acorda, beija o marido, beija os filhos, e é bonito porque o ambiente está completamente ensolarado, depois você descobre que na verdade vivem num cubículo, uma espécie de alojamento de refugiados e só bastou trocar as lentes e a tonalidade da cena. E assim o diretor vai brincando com nossa percepção, cena a cena, induzindo suspense e logo soltando em fumaça. De repente aparece uma carta – o serviço de imigração não aprovou o asilo da família na Finlândia – e você pensa diante do longo silêncio que o título finalmente se revelou, olha aí o tal “momento”, mas nada, cabe recurso, e o filme segue aos olhos da criança, desse adolescente e suas brincadeiras.

A câmera naturalmente o segue na escola, nesse filme comum de verão, a narrativa corajosamente em paz: há um episódio que sugere uma iniciação LGBT, dai você pensa no título, mas de novo o drama se dissolve a contento, há outro acontecimento envolvendo a polícia, você sente o arrepio, mas isso envolve outro aluno e você respira. E essa máquina de empatia vai lhe desarmando, você se sente mais à vontade com o filme, cada vez mais envolvido nessa família, abraçado por eles. O pai é interpretado pelo muso de Farhadi – Shahab Hosseini -, há uma cena que ele aparece bêbado e você pensa que é alcoólatra, mas não, foi um caso isolado. Todos riem. E é quase faltando cinco minutos de projeção, na cena mais fofa e inimaginável, que o título finalmente se revela: nesse momento o segundo filme, que estava bem escondido, escancara as portas, agarra seu coração bem firme, torce e arranca. E é ali que você sente o golpe (de mestre!). Não é surpresa, o título já avisava. A brincadeira foi acreditar na ilusão de um “cinema iraniano feliz”… não existe. Nem mesmo na Finlândia.

RATING: 74/100

TRAILER

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REVIEW · BERLIM

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