Donbass

DONBASS


DONBASS é esbornia, é carnaval, cambalacho e sassaricando. É a história do Brasil filmada na Ucrânia. A fusão de uma novela de Silvio de Abreu com um filme de pombo de Roy Andersson. Uma serie de aventuras malucas nas quais o grotesco e o trágico se misturam entre si, como a vida e a morte nos morros cariocas. É um longo plano sequência de esquetes, cada um se conectando ao outro, e dessa farsa em fantasia de carnificina, dessa reinvenção de 1984, de George Orwell, Sergei Loznitza emula a ficção baseada em (tristes) fatos reais. É um surto. MY JOY. Cinema donde a guerra é paz, propaganda é mentira, ódio é amor. Que rei sou eu? Que país é esse? Ora, é Donbass, tão distante, tão inimaginável. Quase uma anedota, mas é um documentário.

Na tela, o que se vê é um mundo perdido. Situações aparentemente fictícias, mas que se encaixam em diversos lugares, países e sistemas políticos, tal a caricatura, o olhar tragicômico sobre a guerra, as gangues, essa geração. O tom de tragédia é o mesmo de MINHA FELICIDADE, na comédia vemos UMA CRIATURA GENTIL, embora um degrau mais burlesco, quase num flerte ao cinema de Matteo Garrone. Então, o que se vê é uma GOMORRA ucraniana, sem qualquer lei ou moral, e donde os personagens – as pessoas desse lugar – vivem da orgia, da fanfarra e das mamatas dos governantes, isso diante de um povo alienado, manipulado, degradado e sempre em guerra – e contra o que? Contra quem? Não se sabe, mas certamente são fascistas. Os soldados vivem de picles, o povo vive nos bunkers, a polícia se deleita em propinas. Nada funciona, apenas as bombas e a televisão para noticiá-las. Ou mesmo os vídeos dos transeuntes, porque apesar da miséria, todos têm celular para seus selfies.

Loznitsa filma o inverno, um terror extremamente organizado, senão o confronto entre o exército ucraniano e os separatistas russos. O resto fica com cada história, o vizinho horrorizado, a mãe chocada, o trabalhador patriota, a enfermeira caridosa. São marionetes do sistema, a carne enlatada que alimenta um ciclo ininterrupto e cujas imagens, aos poucos, constroem mentalmente um carrossel de horror, um ciclo sem fim, que começa e termina no mesmo ponto: A maquiagem que ilude, a encenação de uma realidade truncada, que todos veem, mas não enxergam de fato. Temos a noticia, Loznitsa tem seu filme e começa tudo de novo…

RATING: 71/100

TRAILER

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CANNES · REVIEW

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