“…é urgente viver encantado. O encanto é a única cura possível para a inevitável tristeza”
Valter Hugo Mãe
Cinema imprudentemente poético
Nos últimos quinze anos, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo consolidou um perfil de curadoria que se tornou sua marca: um equilíbrio entre grandes vencedores de festivais internacionais, novas vozes do cinema autoral e uma vitrine generosa para a produção brasileira. Desde a 40ª edição, em 2016, até o período de reinvenção durante a pandemia, com edições híbridas e online em 2020 e 2021, a Mostra se adaptou sem abrir mão da ousadia. Esse fio condutor explica por que títulos premiados em Cannes, Veneza e Berlim se tornaram presença quase garantida na programação, assim como a valorização de cineastas emergentes e retrospectivas que resgatam nomes fundamentais da história do cinema.
Neste ano, há um sopro a mais: o escritor Valter Hugo Mãe assina a arte do poster da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que acontece entre 16 e 30 de outubro. Sua presença, delicada e firme, também ecoa na exibição de DE LUGAR NENHUM: UM RETRATO DO ESCRITOR VALTER HUGO MÃE, documentário de Miguel Gonçalves Mendes que se anuncia como um encontro com o invisível que nos habita.
Com esse retrospecto e essas presenças, apostar na Seleção de 2025 é como prometer um encontro ao fim da tarde: buscar, entre as luzes da cidade, os filmes que a Mostra sabe tão bem nos oferecer. Mais do que prever uma lista de títulos, trata-se de reconhecer um padrão de escolhas que transformou a Mostra no maior espelho do cinema mundial no Brasil — e, sobretudo, uma promessa de que, em outubro, o cinema nos encontrará.

Deus na escuridão: como chegamos às apostas
O método foi estatístico e histórico: analisamos os últimos 15 anos de seleções da Mostra — um total de 2.445 filmes — e cruzamos com 732 lançamentos de 2025. A partir desse cruzamento, emergiram padrões claros: diretores reincidentes, parcerias de distribuição, peso de outros festivais, datas de estreia e perfis curatoriais. O resultado é um rascunho plausível da programação que o público pode esperar neste ano.

O filho de mil homens, provável abertura

Talvez, uma abertura que não anuncia nada, mas logo se torna inevitável: O FILHO DE MIL HOMENS, de Daniel Rezende, adaptado do romance homônimo de Valter Hugo Mãe, pode inaugurar a Mostra como um convite a (re)existir no afeto compartilhado. O filme acompanha Crisóstomo (Rodrigo Santoro), pescador solitário que encontra em Camilo — um menino órfão — a possibilidade de construir uma família feita de gestos imperfeitos, mas sinceramente humanos. A narrativa, que entrelaça ausência e pertença, dor e ternura, envolve também personagens como Isaura e Antonino, compondo uma constelação de vidas, talvez um idilio.

O nosso reino, nossas apostas
Autores consagrados
THE WIZARD OF THE KREMLIN, Olivier Assayas
O francês retoma a política internacional em chave de thriller, após o êxito de IRMÃ VEP e PERSONAL SHOPPER
DRACULA e/ou KONTINENTAL ’25, Radu Jude
Grande provocador do cinema romeno volta em dose dupla: vampiros e geopolítica no coração da Europa contemporânea
THE DISAPPEARANCE OF JOSEF MENGELE, Kirill Serebrennikov
O diretor russo aposta em drama histórico arriscado, reconstituindo a fuga do criminoso nazista
DREAMS, Michel Franco
O mexicano faz nova reflexão sobre desigualdades sociais, depois de AO CAIR DO SOL e NOVA ORDEM
BALLAD OF A SMALL PLAYER, Edward Berger
Depois de CONCLAVE e NADA DE NOVO NO FRONT, Berger adapta Kazuo Ishiguro em drama existencial ambientado em Macau
NUESTRA TIERRA, Lucrecia Martel
A argentina retorna ao cinema político, explorando o conflito agrário como metáfora identitária
UN SIMPLE ACCIDENT, Jafar Panahi
Mais um gesto de resistência humanitária de Panahi, filmado apesar da perseguição no Irã
BUGONIA, Yorgos Lanthimos
O grego mais badalado de Hollywood resgata fábula surreal, após o sucesso de POBRES CRIATURAS
MIROIRS No. 3, Christian Petzold
Nova peça da série iniciada com UNDINE e AFIRE, sobre amor, memória e fantasmas da Europa
SILENT FRIEND, Ildikó Enyedi
A húngara indicada ao Oscar retorna com romance intimista, evocando o lirismo de CORPO E ALMA

Cinema brasileiro em destaque
O AGENTE SECRETO, Kleber Mendonça Filho
O pernambucano investe em suspense político infiltrado entre carnaval e caramelos
HORA DO RECREIO, Lúcia Murat
A diretora mistura memória e ficção para abordar juventude, educação e democracia
MAGALHÃES, Lav Diaz
Coprodução luso-brasileira sobre a viagem marítima de Fernão de Magalhães em chave contemplativa

Retratos políticos e sociais
SOTTO LE NUVOLE, Gianfranco Rosi
Nova incursão do documentarista italiano sobre as migrações no Mediterrâneo
EAGLES OF THE REPUBLIC, Tarik Saleh
O sueco-egípcio recria conspirações militares em Cairo, ecoando seu GAROTO DOS CÉUS
MOTHER, Teona Strugar Mitevska
Drama macedônio sobre maternidade e lutas feministas no leste europeu
À PIED D’OEUVRE, Valérie Donzelli
Olhar feminista sobre arte e corpo em um filme híbrido de ensaio e ficção
WRITING LIFE, Claire Simon
A francesa trabalha diários e cartas íntimas para pensar cinema e memória
ORWELL: 2+2=5, Raoul Peck
Do diretor de EU NÃO SOU SEU NEGRO, uma leitura atualizada do autor de 1984
JEUNES MÈRES, Jean-Pierre & Luc Dardenne
Mais um mergulho social da dupla belga, desta vez acompanhando mães adolescentes
PAUL, Denis Côté
O canadense explora um retrato experimental da solidão, com humor ácido
AS ESTAÇÕES, Maureen Fazendeiro
Jornada contemplativa entre documento, fábulas, memorias e o Alentejo

Cinema europeu em mutação
MADE IN EU, Stephan Komandarev
O búlgaro aborda as fraturas sociais pós-união europeia
DOSSIER 137, Dominik Moll
Após A NOITE DO DIA 12, o francês volta ao suspense investigativo
MORLAIX, Jaime Rosales
O espanhol aposta no realismo cru para narrar tensões familiares
FRANZ, Agnieszka Holland
A polonesa, indicada ao Oscar, revisita essa figura histórica em tom humanista
DIRECTOR’S DIARY, Aleksandr Sokurov
Registro ensaístico de bastidores, continuidade de sua obsessão pela forma
BACK TO THE FAMILY e/ou IN LAGUNA, Sharunas Bartas
O lituano apresenta dois longas em conjunto, sempre com atmosfera melancólica
PRIMITIVE DIVERSITY, Alexander Kluge
Veterano alemão segue experimentando com colagens filosóficas e visuais

Novas gerações e cinema de gênero
NUIT OBSCURE, Sylvain George
Documentário-ensaio sobre juventude marginalizada na França
YAKUSHIMA’S ILLUSION, Naomi Kawase
A japonesa mistura natureza e espiritualidade na ilha sagrada de Yakushima
ANGE, Tony Gatlif
Retrato poético sobre povos nômades, marca da carreira do diretor
JAY KELLY, Noah Baumbach
comédia dramática urbana, na tradição neuroticamente cômica do diretor
PETER HUJAR’S DAY, Ira Sachs
Biografía poética sobre o fotógrafo, com estética intimista
SPRINGSTEEN: DELIVER ME FROM NOWHERE, Scott Cooper
Releitura musical em tom biográfico sobre a era Nebraska de Bruce Springsteen
BACK HOME, Tsai Ming-Liang
Novo capítulo do mestre taiwanês, explorando espaço e silêncio
AMRUM, Fatih Akin
O JOJO RABBIT do diretor alemão
THREE GOODBYES, Isabel Coixet
A espanhola filma três histórias de despedida em chave melodramática.

Nomes celebrados de festivais
DEPOIS DA CAÇADA, Luca Guadagnino
Suspense erótico, após a visibilidade global de RIVAIS e QUEER
& SONS, Pablo Trapero
Drama argentino sobre família e legado, mantendo-se no realismo social
NO OTHER CHOICE, Park Chan-Wook
O coreano de OLDBOY retorna ao thriller, desta vez em tom político (ou capitalista)
MARC BY SOFIA, Sofia Coppola
Retrato íntimo de Marc Jacobs, prolongando sua obsessão pelo pop e juventude
FATHER MOTHER SISTER BROTHER, Jim Jarmusch
Novo mosaico do indie americano, com humor minimalista e referências pop
TWO PIANOS, Arnaud Desplechin
Drama familiar com música clássica, depois de BRIGA ENTRE IRMÃOS
THE FENCE, Claire Denis
A francesa retorna à África, revisitando temas coloniais
BLAZING FISTS, Takashi Miike
O japonês entrega mais uma extravagância de artes marciais
GHOST ELEPHANTS, Werner Herzog
Herzog une documentário e ficção em aventura filosófica
L’ÉTRANGER, François Ozon
O francês adapta Camus, em chave contemporânea
Gravuras retiradas do livro “O Paraíso são os Outros”, de Valter Hugo Mãe
