
Já havia, em todo o ecossistema Marvel, um cansaço visível dos personagens, a exaustão narrativa dos heróis, a fadiga de uma fórmula que, há tempos, já clamava por repouso. Mesmo assim, o estúdio – em uma tentativa quase maternal de revigorar seu rebento mais negligenciado – resolveu recomeçar… e de novo, não apenas recomeçar: recomeçar em tons pastéis. “Primeiros Passos” é, de fato, uma reinvenção, mas feita em pincéis suaves, como se tivesse medo de ferir. Aqui, um azul-bebê tímido paira sobre a tela como móbile de nuvens de algodão, enquanto a fotografia parece saída de um catálogo vintage de enxoval: tudo limpinho, padronizado, confortável. Sim, o retrofuturismo anos 60 convence com sua arquitetura de playground intergaláctico e design de personagens, um feito que nos remete à capa amarelada de um gibi esquecido no fundo do baú, mas há algo de adormecido nessa historia, nesse berço cinematográfico. Ai, que soninho…
Os tais “primeiros passos” do título são, na prática, um engatinhar lento e hesitante: o roteiro, preso ao travesseirinho da nostalgia, não aprende a caminhar com firmeza, sequer balbucia ideias. Há potencial, claro, mas ele é embalado demais, embalado de menos. E o que poderia ser o nascimento vibrante de uma nova fase do QUARTETO FANTÁSTICO, apenas se contenta em ser um bebê, embalado por cenas e trilhas sonoras de ninar.
Mesmo em meio ao balbuciar contido, há um esforço (tímido?) de construir um lar… o tal senso de família que sempre fora pedra angular do Quarteto, mas aqui é apenas um colinho morno, quase artificial. Os laços entre os quatro protagonistas são tecidos com fios de cetim, bonitos à distância, mas frágeis ao toque. As conversas soam ensaiadas como recitais de escola, os conflitos são abafados por uma cortina de compreensão agridoce, como se todos tivessem nascido já sabendo perdoar. Até o vilão – uma figura que deveria ser o caos em rasgar a fralda do mundo –, esse é também contido, quase dócil, como se também tivesse sido educado para não chorar alto demais. Simplesmente não há dentes nem baba nos antagonismos, apenas uma ameaça polida de um universo que parece temer o próprio barulho. Tudo aqui, heróis e vilões, parece andar na ponta dos pés, silêncio para não acordar o bebê.
No fim, a Marvel parece mais uma mãe exausta tentando repetir o truque que já funcionou, agora com roupinhas novas e papéis de parede neutro, mas talvez, talvez o que falte mesmo, fosse o choro do inesperado, a caquinha do mundo real, o vermelho berrante do risco… porque, por mais confortável que seja um berço, ninguém aprende a correr se não for, primeiro, jogado no chão.
Por Mauricio Ribeiro
RATING: 70/100

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