A Nuvem Rosa

À primeira vista, A NUVEM ROSA sugere certo oportunismo, mas o filme de estreia de Iuli Gerbase foi escrito em 2017 e filmado em 2019: a intenção era explorar os diferentes caminhos emocionais de dois personagens, forçados a viver sob um longo e surrealista confinamento. Com visões muito distintas do que é liberdade e felicidade, Giovana e Yago reagem de diferentes formas enquanto tentam se adaptar ao mundo de nuvens cor-de-rosa. Seria meramente uma ficção na época, uma ideia para explorar o arco emocional dos personagens sob uma situação de estresse, não uma típica história pós-apocalítica donde a batalha pela sobrevivência é o foco, mas um lento, pequeno e existencialista cinema filosófico, assim era esperado.

Entre as referências, estão O ANJO EXTERMINADOR (Luis Buñuel, 1962), a peça “Sem Saída”, de Jean-Paul Sartre (1944), então o discurso é mesmo a problemática do Outro, esse “inferno” que se cria pelos dilemas de conviver e esperar e sufocar diante da espreita de uma nuvem tóxica. A câmera inteiramente nos personagens, tão somente nessa relação infligida entre os dois e a relação que eles têm com a nuvem que os cerca há anos. O espaço restrito é um apartamento. Total privação do exterior. O público seria uma quarta parede e, de fato, encontra-se na posição de um guarda prisional observando com mais ou menos sadismo “seus internos” se despedaçarem.

“O inferno são os outros”, dizia Sartre, mas o inferno também é rosa macio como uma nuvem, sedutor e inofensivo, segundo a cineasta: é uma proposta contemporânea dela pintar essas nuvens de rosinha, uma cor associada ao feminino porque sob a dependência da clausura, da coação de viver com o outro, Giovana se vê obrigada a seguir os passos da sociedade, aquilo que se impõe da mulher a seguir: casar-se, construir uma família, um lar confortável e… reprimir seus desejos. A cor rosa macia aqui, revela-se tão ou mais sufocante para Giovana que se obriga ao confronto (feminista?) com o estado de nuvem. Não à toa é a primeira a surtar. E dessa tortura psicológica entre homem e mulher, pessoas e nuvem, o inferno não sente necessidade de carrasco ou guardião, porque os próprios personagens se tornam assim, um para os outros, e sobretudo para eles próprios.

Nota de produção: é curioso, foi durante o processo de montagem, no início de 2020, que a pandemia de fato veio e deu a toda a equipe a sensação muito estranha de viver em seu próprio filme. Algo surreal, diria, não existe precedentes no (meta) cinema.

De fato, essa experiência de Gerbase é bem mais radical que a quarentena que vivenciamos: a ameaça é mais fatal, o isolamento é mais urgente, o desgaste será mais extenuante. Talvez não fosse a intenção na época, mas agora se torna quase um filme de terror pela extensão desse roteiro, de como ele enclausura dois personagens completamente estranhos (e tantos outros em arcos narrativos mais macabros) e daí constrói um jogo animalesco de enlouquecer/não enlouquecer. Uma projeção que vai tensionando as relações, decantando a humanidade de cada pessoa até restar quase nada, até cada um viver em sua própria bolha, mesmo convivendo no mesmo espaço. E o tempo passando, a nuvem cada vez mais densa, tudo cada vez mais imprevisível… é simplesmente desolador, dado nossas circunstâncias. O final é um respiro (ou não), mas é perfeito.

(*) Crônica livremente inspirada da entrevista da diretora, em Sundance.
RATING: 72/100

TRAILER

Article Categories:
REVIEW · SUNDANCE

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.