Mass

MASS começa e tudo desmorona: em sua rigidez e agarrando-se à culpa, à vergonha ou ao orgulho, querendo lutar ou sucumbir, quatro personagens surgem para uma conversa civilizada, ali sem desculpa pelos sentimentos, apenas para se expressar ou questionar, ser curioso e não defensivo, talvez vingativo. Sim, são quatro atores numa sala, sentados ao redor de uma mesa, num encontro fraterno de igreja, só isso. São dois casais, outrora pais, hoje não, tão somente para entender – Oh God! – o que eles prometeram não falar, mas precisa ser dito por que há um elefante na sala, um vaso de flores também, e eles precisam dizer – “por que nos falamos sobre isso? não vim aqui ouvir isso” -, e muito há para ser dito. E por quê? Porque o filho de um matou o outro… e que DEUS DA CARNIFICINA abençoe esse embate.

Então, um filme para compartilhar historias, experiências, verdades, mesmo quando se está em conflito com o outro; um cinema para encontrar um jeito de se conectar, de curar, possivelmente uma forma de perdoar. E esse é o único foco, todo encenado como uma peça, desses teatros filmados donde você senta e assiste e vai se impressionando com a historia que lhes contam. Ao centro, ao redor da mesa-coliseu, estão os quatro atores em duas horas de conversa exaustiva e isso na interação mais temida, tensa e emocionalmente desgastante que se possa imaginar. Diante do espetáculo de dialética, o estreante Fran Kranz apenas filma o processo e o faz em longos planos e contra planos, sua câmera vagarosamente indo de um rosto ao outro, enquanto os atores se atiram ao tribunal missionário, sua conversa em tempo real meditando sobre o trauma, se desconstruindo em cena, definhando na terapia de choque.

E assim o roteiro-reconciliação dá lugar de fala, expressa confusão, toda a compreensão para nossas perguntas, o que quer que seja imediatamente colocado em discussão e indo cada vez mais fundo, cada ator muito tempo sozinho e sozinho e sozinho, ali pensando sobre a perda do filho e se agarrando a isso com toda sua força, esse fiapo de luto para então explodir, compartilhar, passar por todo o exercício de (con)viver com o outro, eles completamente entregues ao texto, aos personagens e suas minúcias. E então o brilhar de cada um, na tela Reed Birney e Ann Dowd, Jason Isaacs e Martha Plimpton, todos nesse monologo sublime para se desfazer na sala, rosto a rosto, camada a camada – você nunca sabe o que vai acontecer, como vão reagir, porque tudo é complexo demais, pesado demais. E é nesse momento que surge a cerca e a fita: a cena silenciosa do campo – que também ilustra o pôster. Um momento para respirar, sair da sala. É um corte limpo, leva segundos, surge do nada… ninguém sabe, você, os personagens, porque está lá, mas todos sentem essa paz impensável, inimaginável. Uma paisagem que permanece conosco, a sensação de sempre estar ali e se tornar o único lugar que éramos, que íamos, que queríamos sair.

Também é curioso o título original: em inglês, “mass” tem sentido duplo, pode ser traduzido como “massa”, e logo representa toda a emoção massiva com o qual os personagens carregam com eles, essa nuvem pesando seus passos até o momento, mas também significa “missa”, então o filme se vale de um aspecto religioso também, quase no contexto catártico do perdão. Ambos os significados indo de encontro à montagem dos corpos, essa reunião de pessoas para falar de conexão humana, sim, esses encontros acontecem, as pessoas querem ser curadas, e apesar de quão bizarro possa parecer, é o único caminho a seguir.

RATING: 80/100

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REVIEW · SUNDANCE

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