Suor

Com a energia lá em cima, SUOR abre na euforia, na aeróbica de inspirar e expirar e nesse ritmo frenético, vai aos pulos e um, dois, três e quatro: expire, inspire, a câmera em plena ginástica, indo, vindo e rodopiando no exercício e depois mergulha e grita e sefie! O filme começa e nos deixa sem fôlego, os planos muito agitados, a celebridade no palco, a endorfina na estratosfera, tudo correndo diante da tela, malhando e malhando nesse cinema-coaching, engajado, curtido, militado, enquanto Magnus von Horn vai gravando o story dos bastidores, a vida por likes, o dia-a-dia fitness emoldurado por patrocinadores e happy contextos, tão somente para desidratar sua personagem até sobrar completa solidão. E sim, é nessa melancolia sob filtros de Instagram que o filme se interessa e ganha musculatura.

Então, um estudo de personagem, a história de uma influencer digital e seus exibicionismos emocionais. Uma protagonista fabricada pelo exterior, obsessivamente pelo corpo, compulsoriamente pelas redes sociais, suas emoções sempre em julgamento à vista de todos e por views, tantas fotos e vídeos, a toda hora, porque publicar e compartilhar tal vida é seu trabalho. E tudo, desde dirigir para casa do trabalho, falar sobre uma dor de cabeça, os problemas emocionais, o que comer na janta, abrir sacolas de presentes, cada momento é conteúdo para seus seguidores. Ela é autônoma e seu produto é o corpo, foi capa de revistas de musculação, lançou vários DVDs de treino, mas quem é ela de verdade quando tudo está off-line?

E nesse ponto, o filme respira.

Logo a câmera se aproxima, envolve completamente a personagem e, com ela, o publico olhando mais de perto, os medos, os receios, os sentimentos, o rosto de Magdalena Koleśnik cada vez mais atraente e intrigante, sua postura encolhendo, tornando-se tão frágil, enquanto a projeção ganha massa emocional. É uma história sutil e, portanto, abraça as banalidades do cotidiano. Longas cenas e passagens onde o significado não é comunicado diretamente, mas vem de uma coleção gradual de experiências. E nesse fluxo se compõe um (belo) retrato de personalidade. Um cinema que nos questiona o que devemos compartilhar, o que devemos nos conectar e, sobretudo, o que realmente importa: as coisas? As emoções? O monologo final, todo o desabafo (ou aceitação) da mulher se espalha pela tela, nos traz conforto, carinho… o filme termina e retorna ao suor e euforia de sempre, mas dessa vez você entende a rotina e não julga. Não mais.

RATING: 68/100

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REVIEW · CANNES · MOSTRA SP

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