Vidas ao Vento


“Le vent se lève! … Il faut tenter de vivre!”
(O vento está aumentando! … Devemos tentar viver!)
Paul Valéry, Le Cimetière Marin


Aos 72 anos, o mestre Miyazaki se faz nostálgico. Deixa de lado o mundo da fantasia e da fábula, temas tão caros – e prestigiados -, para mergulhar no mais absoluto realismo, cheio de reflexões sociais, de detalhes íntimos, de lembranças familiares… Tudo para nos contar uma irresistível história de amor, imersa em uma cidade em plena mudança, em uma época que o vento levou, para longe, para cima, e adiante.

Detalhes como o retrato doméstico, o discurso político (sempre ao fundo) e as referências impressionistas, assim como a incrível beleza do cenário, das paisagens, dos personagens, sabíamos, é a marca registrada do autor, senão do Studio Ghibli, mas nesse projeto, o voo é ainda mais ambicioso pela amorosa atenção aos detalhes de época, ao tempo, ao vento, à imaginação.

Então se funde o passado, a ficção, a fantasia em uma pintura, um desenho em tom pastel, onde a fronteira é turva, a experiência é um sonho, afinal para nos contar essa história, recalque de antigos trabalhos, de velhos mangás, aventuras de jovens brilhantes e destinos cruéis, que remetem à infância do mestre, à pureza de seu trabalho, talvez sem muita inovação, mas ainda com o mesmo engenho que lhe é peculiar. E assim se ilustra o sonho do herói, o jovem -e promissor – Jiro Horikoshi e seu encontro extraordinário com Gianni Caproni, o excêntrico projetista de grandes aviões, fabulosos em todos os sentidos, literalmente um deleite, não só pela graça no ar, mas pelas carnudas jovens que o preenchem. Aliás, um raro momento de liberdade erótica que Miyazaki se permite.

E a cada avião, a cada maravilha, um pouco de romance, um pouco de turbulência. Afinal, a sombra da guerra, o terremoto que varre o Japão para longe, para baixo, para trás, nessa calamidade, nesses dramas. Histórias que Miyazaki viveu, sofreu e retratou agora, primeiro em um mangá, depois nesse filme que, talvez, seja seu canto do cisne. E se assim for, é um sonoro adeus nas asas de amados (aero)planos, alguns de papeis, muitos em película, todos tocados pela mão do gênio que voa, ora triste, ora alegre, sempre em nossa memória.

RATING: 83/100

TRAILER

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ANIMAMUNDI · FILMES · TIFF · VENEZA · MOSTRA SP

Comments

  • As animações de Hayao Miyazaki são sempre imperdíveis. Quem sabe, “The Wind Rises” não vem para salvar o ano da animação em 2013, que, por enquanto, tem sido um tanto fraco.

    Kamila 22 de julho de 2013 23:16 Responder

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