O Botão de Pérola

EL BOTÓN DE NÁCAR
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“Alguns dizem que a água tem uma memória.
Este filme mostra que ela também tem uma voz”


A galáxia, o mar, um botão… Eis a origem (e o final) da vida, as imagens que fluem pela tela e isolam em si, um sentimento poético e político, a dualidade dentre ficção e realismo, individual e coletivo, minúsculo e universal, tantas histórias e a própria História. E especialmente a de um cineasta e seu Chile, outra não-história, outra poesia, a de seu povo, todos aqueles sacrificados pela colonização, pelos espanhóis, também Pinochet, tão reais, tão trágicas, mas esquecidas, enterradas no deserto do Atacama, numa Igreja de barro ou no fundo do oceano.

Um filme que nos remete à NOSTALGIA DA LUZ, o mesmo fascínio que refrata pelo cubo de quartzo, ou pela gota d´água em seu interior. É dali que começa uma história, uma outra projeção, a do homem, a desse drama: Primeiro as estrelas, os cometas, a câmera distante, vendo esse planeta azul lá do alto e lá do céu se aproximando através dos fragmentos, em milhares de ilhas, em tempo algum, lugar nenhum. Depois vêm a chuva, seu ciclo, a intervenção do cosmos, os rios, os mares, esse cinema que nos arrebata em ondas, fluindo pela tela em seu discurso, pela imensidão, por diversas formas e sons, cores e texturas. Belos cristais do tempo imortalizados em película.

Então, o prenuncio dos primeiros homens, ali há 10.000 anos atrás. Nômades d´água, vivendo em canoas, viajando pelo tempo e pelas ilhas, cada um com seu fogo, seu mar e seu conhecimento do mundo. Desse lugar, dessas memorias, o vasto oceano, nossa admiração (d)escorre por um pais em formação, afogado pelo mar e aos pés da imensa cordilheira. Senão um feixe de terra imerso em sua vastidão, talvez uma ilha, uma ideia, um conceito. Esse é o Chile.

Voltemos à água: Cada gota é um mundo à parte, senão a respiração. A água é fonte de música. Ressoa, retumba, ecoa como milhares de vozes, aos saltos, aos cantos. Dali se banharam os nossos antepassados sob Órion e a Cruz do Sul. O cosmo inteiro em pinturas de dedo. O que os telescópios procuraram há centenas de anos-luz, já estavam ali, pintados pelos povos ancestrais. E que, ao final, se perdeu com os jesuítas, suas crenças, línguas, canções e vestimentas. Tudo adoecido pelo micróbio da civilização. Todos caçados, exterminados, dizimados. Esse foi o Chile.

As histórias se amontoam: Os remanescentes se afundaram na miséria, tornaram-se monstros. Imensos “patacones”. Desses, o curioso caso de Jemmy Button nos deixa sobressaltados, um índio vendido por um botão que viajou pelos mares, da Idade da Pedra à Revolução Industrial, dos rudimentos do Chile à Inglaterra gloriosa, quase mil anos à frente, ao futuro e depois voltou. Sua história selando o extermínio dos primeiros povos, se conectando a outra, e a outra, e mais outra e, dali o Chile flutua à deriva, à Salvador Allende e depois ao seu eclipse, aniquilado por um golpe que o aprisionou, drogou, degolou e torturou. E de novo voltamos à Patagônia, à Ilha Dawnson donde os últimos indígenas viveram e, agora, sofrem os seguidores de Allende. A impunidade se acumula por séculos. O Chile é só um capitulo.

E por esse mar, os mesmos temas profundos, difíceis, tão naturais como um rio que segue seu fluxo. Através do seu leito, navegamos serenos, também chocados pelo curso da história e do mundo. O final é o botão do título. Encontrado no fundo do oceano, esquecido, perdido e cheio de corais. Nele, a crueldade encruada de um tempo que se foi e levou consigo os grilhões de uma ditadura, talvez a mais sinistra de todas. Esse é o soco, certeiro e repentino. “Todos somos riachos da mesma água”, dizia Raul Zurita. E o cinema de Patricio Guzmán sempre deságua no mesmo fim, cedo ou tarde. Esse é o golpe de mestre.

RATING: 78/100

TRAILER

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BERLIM · MOSTRA SP · REVIEW · SAN SEBASTIAN · TIFF

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