Drive My Car

Não se vê, não se ouve, nem se percebe, quase não existe e todavia o que Ryūsuke Hamaguchi faz em DRIVE MY CAR é impossível de se ser ignorado: três horas de filme efêmero, de poema-conversa cheio de despedidas, de reviravoltas, de escavação respeitosa e modesta dos personagens, assim tão próxima e distante, participativa e observacional, como tão bem sabe fazer os cineastas japoneses. Afora as referências, Anton Tchekhov, Haruki Murakami, Eric Rohmer, isso em um texto discretíssimo: a história de uma mulher desaparecida e talvez nunca realmente compreendida pelo marido, de um jovem de natureza ambivalente e talvez perigosa, de um protagonista que tritura em silêncio um amor doloroso pela mulher de sua vida. E essas histórias dentro de um carro, tão somente. Memórias e intimidades que nascem dentro de um espaço fechado e móvel, esse já hermeticamente emoldurado em uma tela de cinema. Na verdade, não estão em lugar nenhum, mas você sente, embora não veja, não ouça, não perceba.

Há certamente algo aqui: uma manifestação sobrenatural do sentimento de amor, separação, desaparecimento, assombração, luto ou reparação. E toda essa encenação mobilizada em torno das emoções, suspenso nas falas, conversas ordinárias, gravações, leitura, ensaio, teatro e linguagem de sinais. O argumento é adaptado de um conto de Murakami (esse tirado de uma coleção de sete, intitulada “Homens Sem Mulheres”), e o cineasta não toma (tantas) liberdades ao original, mesmo para equacionar o peso-mosca de um conto de cinquenta páginas em um filme tão longo. Há sim, um diálogo entre linguagens e autores e o resto, o leitor/cinéfilo abraça conduzido nesse carro-conto-filme, ele apenas seguindo adiante, fluindo pela estrada que a palavra constantemente guia.

Se estendendo literalmente ao título, o roteiro desempenha ativo seu papel como veículo, enquanto Hamaguchi segue adiante em outra direção sóbria, comedida e sempre elegante. O trajeto é suave, mas repleto de ambiguidades, segredos e questões não resolvidas que o filme percorre à sua maneira, deixando-nos, como o protagonista, a sensação de estar em uma estrada sinuosa. Há um sussurrado prólogo para nos situar – 40 minutinhos – sob os casos da esposa. E depois dos créditos, o ruminar dos traumas em si, traçando um paralelo com “Tio Vânia” de Tchekhov, a peça que o protagonista pretende produzir, mal sabendo ele ser metaforicamente um dos personagens-chave.

Nessa pequena rota, de casa ao teatro, do carro ao passado, isso repetidas vezes e todos os dias (mas sempre filmado de forma diferente), se constrói uma peça: o palco é um Saab 900 vermelho e no banco do passageiro se senta o protagonista, Hidetoshi Nishijima, ele e o monólogo, suas histórias e as de sua esposa e, então, uma jornada interior, um ajuste de consciência, um filme de (re)descobertas. Enquanto isso, no volante que Murakami colocou nas mãos de Hamaguchi e esse nas mãos da jovem Tôko Miura, e diante dela, o público, tão somente ouvimos o filme e vemos as estradas traçadas. E o romance? Esse é inconsciente. Nosso amor por esse filme, idem.

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela Diaphana Distribution, incluso entrevista com o diretor em Cannes
RATING: 80/100

TRAILER

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REVIEW · CANNES · TIFF · SAN SEBASTIAN

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