Dear Comrades

A química entre realidade e cinema sempre estiveram presentes nas melhores obras do russo Andrey Konchalovskiy: seja na ficção, nAS NOITES BRANCAS DO CARTEIRO, ou no documentário, A HISTÓRIA DE ASYA KLYACHINA, fato é que seus filmes tocam pessoas reais, vivem sons de fala não editados, e não à toa DEAR COMRADES flerte nesses dois mundos, mais uma vez, atores e não atores, filme e vida de rua, preto & branco. Então, outro conto tradicional sobre o amargo, com cheiro de pólvora, o fumo da pátria carregada de energia, a revolução que vai além do enquadramento, que extravasa a tela, grita e nos sacode da poltrona.

No contexto histórico, os trágicos acontecimentos em Novocherkassk em 62, quando uma greve de trabalhadores foi brutalmente reprimida: Dos 145 mil habitantes, 12 mil trabalhavam na fábrica de locomotivas elétricas e a maioria foi à praça pública naquele 1º de junho protestar, no geral era pobres operários, infelizes amontoados em quartéis, quartos alugados e esquinas, todos famintos porque não havia batatas, não havia leite, o salário era irrisório, a multidão era feroz. O roteiro reproduz os eventos meticulosamente. Diante da própria manifestação com cartazes e slogans, os oficiais do partido comunista em suas camisas encharcadas de medo, avançavam com os tanques para restaurar a “ordem” conforme diriam os generais. E depois, após o tiroteio, a cidade vai sendo estrangulada pelo regime soviético, a polícia rondando as ruas, os moradores assinando papeis de sigilo, pessoas presas do nada, por fotos, incluindo feridos. Todos condenadas à morte, a décadas de prisão, ao campos do PARAÍSO que o próprio cineasta filmou recentemente.

Então, Konchalovskiy transforma o thriller político em uma tragédia de três partes sobre a busca de uma mãe por sua filha, isso em um caldeirão em chamas. E ao fazê-lo, satura a película de inimigos. Uma raiva fervente, uma rebelião de derramamento de sangue acompanhada pelo toque incessante dos apitos da fábrica. Os trens parados. Três dias malditos que abalaram uma cidade isolada em um país isolado. E o silêncio repentino. Sim, porque é proibido enterrar… falar… saber… até lembrar… foi ordenado esquecer. E a protagonista, outrora filha mortal de deuses stalinistas, fica à deriva pelo toque de recolher, a ruptura entre o humano e o sistema, o homem e o estado, torcendo e destruindo sua família, seus ideais. Com ela, nós nesse trem fantasma, descascando a pele, cavando a terra com as mãos, se desembaraçando das teias de aranha, diante desse cinema que se refere aos anos 60, mas dialoga com hoje, porque tudo rima, tudo é hostil e irreconciliável. Estaremos melhores? Tal cinema questiona (e nos intriga).

(*) Crônica livremente inspirada do material cedido pela Films Boutique, incluso notas de produção
RATING: N/T

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VENEZA · PREVIEW

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