Parasita


O título evoca um filme de criatura, uma ficção cientifica, algo na linha dO HOSPEDEIRO, de OKJA e talvez até o seja porque PARASITE abre no estrume, no buraco mais profundo, debaixo de tudo, da terra e de todos e nessa vala comum donde o inseticida não alcança, ali vivem os vermes. Vermes que um dia sonharam e não sonham mais. Vermes que sobrevivem sem wi-fi. Quatro vermes sob o limbo de uma pedra, a ferrugem de uma medalha, em caixas vazias, no fracasso de sua existência. Acima deles, o jardim. A grama. O Sucesso. Uma possibilidade, talvez. Sim, eles nunca quiseram fazer mal, mas são vermes, são parasitas, e precisam sobreviver.

Bong Joon-ho filma, então, o imprevisível. O ato simbiótico de uma família em função da outra, ambas em vagões opostos no EXPRESSO DO AMANHÃ, e tal qual no filme de 2013 donde os desafortunados avançavam penosamente à frente e rumo à locomotiva, aqui, os vermes tentam a fotossíntese além de tudo, acima e através do Sol (ou fortuna) de outra família. Portanto, um cinema de contraste, de “Brega & Chique”, de altos e baixos, riqueza e pobreza, ou senão uma mórbida tragicomédia donde a natureza conspira (veementemente) nesse habitat entre hospedeiros e parasitas, quem está acima e quem está abaixo. Um filme que intriga. Que fede, mas ironicamente cheira à Palma de Ouro.

E é assim porque o cineasta vai sugando nossos nutrientes, se apoderando de nosso riso, nos habituando nessa comedia de absurdos e, pouco a pouco, nos enterra cada vez mais fundo e mais perto dos vermes até nos afeiçoarmos completamente aos personagens e seus delitos, torcendo por sua existência, vibrando por seus pequenos sucessos e, ledo engano… a campainha toca e acordamos no susto. Nesse ponto, o diretor nos chuta da comédia ao suspense e do suspense ao terror e, ali, nesse fosso ficamos, porque o fantasma está solto e saiu do armário. E apavorados ao lado dos vermes, boquiabertos e surpreendidos pela ousadia, debaixo da cama, atrás do sofá, no túnel mais escuro e cheio de sangue seco, contemplamos o horror, o fedor, a enchente que nos engole por completo. Não há mais ar. Qualquer esperança. Esse filme nos vampiriza, mas não tem monstros, nem vilões, nem criaturas. Nem é ficção, mas um retrato mordaz de uma sociedade que cheira estrume.

RATING: 95/100

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REVIEW · CANNES · TIFF · SAN SEBASTIAN · MOSTRA SP

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