Les Misérables


LES MISÉRABLES abre em apoteótica euforia e é difícil acreditar como o estreante Lady Ly manterá o ritmo até o final. Acreditem, ele o faz. Seu filme é a reinvenção de CIDADE DE DEUS na França, o cruzamento de POLISSIA com DHEEPAN, e é soberbo em seu retrato dos subúrbios, no arco dos personagens, no ritmo e suspense social. O diretor nos observa de longe, nos segue de bicicleta, nos filma em seu drone, e no momento certo, quando tudo parece concluído e satisfeito, de repente nos arranca do cinema, da poltrona, num verdadeiro filme-tocaia. O garoto está extraordinário. Aliás, garoto é o c***, O nome dele é Zé Pequeno.

Um filme que começa abraçado em bandeiras francesas: Estamos num país exultante, em azul, branco e vermelho, no sorriso desse garoto que vai ao (Arco do) Triunfo comemorar a Copa do Mundo. Nesse dia todos são franceses, então, o filme abre não somente nos subúrbios, mas também na França, sem distinção de cor, credo ou classe. Nesse dia, todos são franceses, todos são bleus. Depois, tudo se fragmenta novamente: os primeiros quarenta minutos são uma imersão calma no distrito longe. Um cartão de visita à comunidade antes de toda a ação. Com o policial novato, o público é convidado a fazer a ronda, passear pelos quarteirões, se familiarizando com os personagens e o tecido do bairro.

O cenário é justamente Montfermeil, aonde há mais de 150 anos foi escrito “Os Miseráveis”, de Victor Hugo. O título, naturalmente, se refere ao mesmo livro, “quase como uma piscadela ao publico para dizer que a miséria ainda está presente”. Aliás, não à toa o filme se situa nessa periferia, porque tal set é o bairro do próprio diretor, criado nesses prédios desde a infância, ele próprio um cinegrafista amador, com vários “documentários brutos” editados no You Tube. Então, seu filme é um pot-pourri de histórias coletadas de sua própria vida, suas experiencias e a de seus parentes e de todos os muçulmanos, ciganos ou imigrantes de todos os tipos e cores que vivem ali. Tudo nele é baseado em eventos reais: o júbilo da vitória na Copa do Mundo, a chegada do policial no bairro, o drone, até mesmo um leão roubado dos ciganos. São histórias recolhidas (e filmadas) por cinco anos, histórias da vizinhança, histórias policiais de crime e castigo, histórias sem preconceito e julgamentos de jovens e vulneráveis. Talvez porque seja a realidade documentada e ficcionalizada em um conto único, muito complexo, e certamente narrado como um barril de pólvora. O tal garoto, tão somente é o pavio desse coquetel motovov.

RATING: 78/100

TRAILER

Em Breve…

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REVIEW · CANNES

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