Ayka


Um comprimido. Dois comprimidos e a dor não passa. O bebê ficou no hospital. As galinhas já foram depenadas, mas o patrão fugiu com o salário de duas semanas. Ayka precisa desesperadamente de dinheiro. Está nevando. Seu corpo está entorpecido com o cansaço do parto. O telefone toca, ela não atende. Outro comprimido. O sangue escorre pelas pernas. A dor é asfixiante. Os peitos estão inchados de leite. Ayka precisa de emprego. Seus papeis não estão em ordem. Segue um comprimido. Um chá quente. Ayka tem fome, está faminta. A dor é exasperante. O sangue persiste. A polícia está perto. Talvez seja uma hemorragia. Mais um comprimido. O aluguel está atrasado. O celular toca. Ela não tem dinheiro. O peito dói. As pernas doem. O corpo fraqueja. Dois comprimidos. Os dias passam. A dor não cessa. Há um trabalho para tirar a neve da rua, mas Ayka não tem forças. Ela precisa ver um médico. Ela será deportada. A máfia está atrás dela. Sua irmã lhe liga. Ela não tem dinheiro. Ela implora por trabalho, enfrenta mil recusas. É hemorragia. É mastite. Ela podia ter morrido. Outro comprimido. Os músculos estão doloridos. O leite encharca a camiseta. O gelo derrete entre as pernas. O sangue pinga no chão. Ayka desmaia. Um comprimido. O despertador toca. O inferno. A Rússia. O bebê está no hospital. Foi abandonado. Quem é o pai? Não existe, ela foi estuprada. Mais um comprimido. O bebê chora. A máfia lhe dá dois dias de prazo. Ela será morta. Queimada. Enterrada na floresta. Um comprimido. Somente dois dias. Tem faxina na clínica veterinária para fazer. Passe o esfregão a cada 30 minutos. Dois dias. Um comprimido. O bebê tem fome. Ayka não pode mais. Ela acolhe o sofrimento. A criança é sua última esperança.

Sergei Dvortsevoy, então, filma o horror. O choque. O tormento. Seu filme é um assombroso trem-fantasma nas pegadas dessa personagem, de AYKA, dessa atriz laureada com as Palmas, SAMAL YESLYAMOVA, e sempre dolorida, ofegante, cambaleando pela neve, completamente extenuada, se arrastando pela projeção afora, inferno adentro, como se fosse um documentário grave ou um filme dos Dardennes. E é mais sinistro, feroz. Um filme de terror.

RATING: 74/100

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REVIEW · CANNES

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