Streetwise

Um pouco rígido e enrolado, meio sinuoso esse STREETWISE (GAEY WA’R), filme de estreia do chinês Na Jiazuo: um tour de force pelas vielas decadentes de Sichuan, Chongqing, isso em ruas quase desertas, desoladas, solitárias e encharcadas pela chuva, como tal cinema gosta de se expor em lenta cocção. Um (falso) policial, um (quase) cinema yakuza, não é thriller, não é romance, é talvez um novo noir (méh) de um jovem (aprendiz) de 21 anos, ele nessa carreira de capanga, de cobrar dívidas para arrecadar dinheiro e, assim pagar as despesas médicas do pai, que lhe detesta, mas está morrendo – “cobrar uma dívida é perfeitamente legítimo”. Um protagonista franzino, desconexo, que pouco sabe, não é grande lutador e, portanto, só apanha, aliás esse é um filme de muitas surras e hematomas – e o público que lute para entender as metáforas. E enquanto isso, o rapaz no amor (baldio, platônico) por uma garota, ex-namorada do gangster local. Parece complicado? De fato, é: uma rinha de intrigas, drama familiar, cenas e cenas (pseudo) metafísicas e, claro, um caracol.

Há muitos conflitos em cada personagem, como demanda o gênero: altos e baixos, trancos e barrancos, a história vadiando pelas ruas sem ter aonde ir, um filme andarilho portanto. E a cidade ao redor, serpenteando desordenada, cinzenta, bagunçada, se agarrando pelas colinas, sibilando pela tela, os edifícios amontoados em segundo plano. Faz você se sentir desnorteado. Dá vertigem. Então, também existem momentos de contemplação, como a lenta, lentíssima cena do bendito caracol, a calmaria dos rios e das colinas verdes… são cenas melancólicas para vez ou outra contrastar com a agitação inquietante… a armadilha desse cenário de lutas, do corre-corre, a relação distante entre pais e filhos, o relacionamento ambíguo com a jovem.

O resultado é um cinema de fragmentos, um catado de cenas com suas intrigas, as desventuras, os tombos. Um filme deslocado e múltiplo, uma visão da China como uma democracia que nunca foi estabelecida e ao mesmo tempo uma reflexão socioeconômica sob códigos antiquados de um estilo de vida que se foi, não existe mais. Um conto do limbo, de uma cidade fantasma, donde os personagens vagueiam sofrendo as consequências de sua coragem ou covardia. Nisso, o cineasta tão somente desvenda sua narrativa, meio no improviso, meio na luta. Nada excepcional, nem ruim, apenas uma proclamação de um discurso ora violento, ora divertido, talvez necessário, “não sei”, como a tatuagem do protagonista que estampa o poster.

RATING: 62/100

TRAILER

em breve…

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REVIEW · CANNES

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