Fabian: Going to the Dogs

Muito repentinamente, o cineasta Dominik Graf nos atira aos cães: seu filme abre mordaz e implacável, uma caminhada que logo nos foge e – muito veloz -, corre atrás de uma sociedade perante o colapso. Sim, é só o metrô de início, pessoas indiferentes indo e vindo enquanto a cidade se dissolve ao redor, gente andando como se fosse um hospício, um labirinto implacável ou sem esperança, voltando no tempo donde a guerra está atrás e adiante. Não à toa, Fabian – o protagonista – surja ofegante porque tal filme já nos tirou também o fôlego, o rumo, tudo. Exceto por um emprego de m*, um salário de duzentos marcos por mês que, do nada, se perde, não há história para se contar. FABIAN: GOING TO THE DOGS é um filme sem enredo, uma história de seu tempo, de amor e perda, e nada mais. O protagonista é um forasteiro, um moralista, sua arma é a observação. Seu objetivo é ver “se o mundo tem talento para a decência” e ele o faz com a devida distância para nos contar seu sarcasmo. Fabian está em desacordo consigo mesmo. Ele quer ser escritor, mas é redator. Mesmo apaixonado, desses amores que surgem como uma onda, mesmo sem acreditar nesse conceito, ele se entrega, lutando consigo próprio e com os tempos em que vive.

A história (que história?) é baseada no romance homônimo de Erich Kästner, publicado em 1931 e posteriormente banido e queimado pelos Nacionais Socialistas. Descreve uma sociedade cambaleante sobre o abismo, pessoas navegando por traumas e incertezas em Berlim, isso durante os quatro anos entre a queda das bolsas de 1929 e a ascensão nazista de 1933. Fabian é tão somente a persona dessa angústia, o “weltschmerz” da República de Weimar através das emoções e experiências de um jovem singular cuja libertinagem e o choque de cultura definiram uma geração — e cujo filme cozinha lentamente a desintegração, a degeneração da Europa ao seu entorno.

A ideia é treinar o olho nos personagens e suas reviravoltas. E é através de Fabian que se constrói um romance de observações críticas, ele um desempregado que perambula pela cidade em busca de trabalho, de contatos. Sua namorada se prostitui para se tornar atriz. Seu melhor amigo se suicida por causa de um idealismo ridículo. Temos ainda o deslocamento de trabalhadores ao desemprego, sexo em público sem restrições, valentia nazista nas ruas… e o filme, nessa grande amplitude novelística, vai pontuando a fraqueza humana, a letargia, a falsidade das circunstâncias, mas sem qualquer juízo de valor. Fabian apenas observa curioso, o cineasta idem, e a projeção nessa cena pitoresca, o razzle-dazzle boêmio de uma época, os sonhos e ambições de um jovem de classe inferior diante do desespero existencial dos ricos burgueses. Isso nas tintas vibrantes de uma era hedonista, as névoas do tempo, bares, bordeis e cabaret, filmado parcialmente em Super 8 e toques de amarelo sujo.

No final, é sempre a mesma coisa, um cinema de jovens em um maravilhoso “novo mundo”, eles acreditando em sua chance, que são necessários (com certeza o serão como forragem de canhão). Aqui o detalhe é a guerra, os resquícios e o prenúncio, e esse texto retirado da grande literatura. A escrita de Kästner – a ironia brilhante, o lirismo afetuoso, uma dose saudável de amargura – é quase tão (ou mais) importante que suas imagens. Destaca o ritmo e a imprudência de uma época, também a tragédia e a urgência, e assim expondo o seu protagonista até o fim, ele ainda resistindo ao mundo cada vez mais cruel, e por isso ainda sem saber nadar em suas águas. Será a ruína de Fabian, mas, em última análise, continua sendo a base de sua dignidade. E novamente ficamos sem fôlego.

(*) Crônica livremente inspirada da entrevista com o diretor, na Berlinale´21
RATING: 77/100

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REVIEW · BERLIM · ROTTERDAM

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