Dor e Glória


DOLOR Y GLORIA… Que belo filme Almodóvar fez para Antonio Banderas, o diretor que segue a vida aos 10, aos 50, aos 80, e de novo na pele de seu ator, que se perdeu pelas linhas da memória, no emocionante monólogo rojo entregue de presente, no palco, na tela, pelo mundo afora, por Penélope Cruz, e depois por Julieta Serrano, mães desse homem tão frágil, tão debilitado, que constantemente cerra seus olhos para não chorar, ou talvez esquecer, ou então VOLVER à aurora de sua vida, ao “primeiro deseo”, e por tal desejo voltar a filmar, e de novo, e novamente nesse (meta) filme sem fim.

“E não me chore por favor, os atores insistem em procurar a lágrima em cada cena, mas não chore no palco que o verdadeiro ator deve realmente contê-las para não escapar a emoção”, instrui o protagonista-diretor. Ao público, no entanto, nenhuma recomendação, então só nos resta chorar com Penélope aos pés de um banco de estação. Ou diante de Banderas, seus olhos embargados em cada frame, cheios de tristeza e melancolia, de dor e glória, ao fundo da piscina, em direção à tomografia, rememorando e relembrando cada detalhe de sua vida cheia de “sabor”.

Então, um filme-testamento, extremamente pessoal que transita pela mortalidade e o infinito, encontros e desencontros, presente e passado, atores e personagens, primeiros e últimos amores, desse protagonista esculpido em cal e desejo, gratidão e afeto, e que se vê agora diante da falta de perspectiva, da depressão e o vazio. Em essência, lembra um pouco o recente QUIÉN TE CANTARÁ, do compatriota Carlos Vermut, mas aqui filmado sob a excelência e cores de Almodóvar, dos vermelhos tórridos, amarelos saturados e, quando necessário, somente o branco de uma tela vazia, para que os atores façam seu ofício. Na verdade, é tudo sobre Almodóvar.

Também um melodrama que nos aconchega pela ternura dessas mães vividas por Penélope e Julieta, os sóis de Andaluzia que, de alguma forma, invadem os pátios da casa-cova e nos acolhem num abraço, num sorriso, nada demais, apenas um momento entre mãe e filho, mas tão caloroso e esfuziante que fica difícil não marejar os olhos. Então, “cierra los ojos, mi niño. Sueña y mira tu passado”. E durante a noite, “La Noche de mi Amor”, que nos (en)canta Chavela Vargas, vemos que tudo não passa de cinema. E corte. E que filme…

RATING: 85/100

TRAILER

BÔNUS

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FILMES · CANNES

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