Chronic

CHRONIC


DEPOIS DE LUCIA, já se imaginava o mais ordinário, o mais devasso, o pior da alma humana. E em sua nova CHRONICa, Michael Franco nos deixa alerta desde a primeira cena: Tim Roth surge em cena, aparentemente reservado, provavelmente curioso, obcecado por uma mulher que, em seguida, surge esquálida, enfraquecida, somente pele e ossos. Quem é essa mulher? Eis o segredo que transita pelas fotos de Nádia, os fantasmas de Sarah. E, assim, o protagonista cuida de nossa atenção, enquanto o cineasta, como em episódios anteriores, surpreendentemente filma o seu oficio.

E o faz com atores, não-atores, cinema e realidade, solidariedade e carinho, nada além disso, um enfermeiro, seu paciente e a (forte) relação que surge daí, desse estranho que surge do nada e imediatamente toma conta, cria vinculo, e vai ajudando nas atividades mais rotineiras, mais essenciais, como dar banho, limpar, servir, conversar ou distrair. E do outro lado, aquele que recebe tais cuidados, aos poucos se tornando mais grato por tal intimidade, mesmo ao fim da vida, e assim construindo um relacionamento através de sinais, gestos, palavras, seja lá o que for, porque tal conexão só importa a eles e ninguém mais, nem a família.

E com a projeção, os minutos passando, dia após dia, logo o suspense cede ao apelo emocional, o público se acostumando com esses personagens que vem e se vão, a rotina, o cotidiano. A câmera focada essencialmente em Tim e a cada um de seus amigos (ou pacientes?). E com eles, o diretor constrói seu cinema (ou terapia?), deixando de lado qualquer coisa que possa distrair além do conflito central, a pressão, a depressão, afinal, o fim que inevitavelmente surge. E virá certamente. Um atropelo que nos deixa atônitos, mas não totalmente espantados, porque conhecemos o cineasta e principalmente DEPOIS DE LÚCIA. Sim, existe maldade no mundo.

RATING: 69/100

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CANNES · MOSTRA SP · REVIEW

Comments

  • ”Um atropelo que nos deixa atônitos, mas não totalmente espantados, porque conhecemos o cineasta e principalmente DEPOIS DE LÚCIA. Sim, existe maldade no mundo.” Desculpa, mas isso é uma grande informação sobre o final… dá margem pra quem não viu o filme esperar algo impactante ou se até ler nas entrelinhas… Adoro seus textos, só acho que informações assim, mesmo que possam soar primeiramente como metafóricas ou parte da poesia do seu texto, pode ”estragar” uma experiência.

    Enki Daeva 8 de novembro de 2015 3:19 Responder

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