



URCHIN fede. E isso é um elogio… fede a colchão molhado, a urina seca em esquina, a sebo encruado no cabelo, a solidão abafada por papelões sujos de história. É cinema que flerta pelas frestas da ficção social para tocar o pulso gangrenado de uma realidade que poucos ousam olhar – nem Ken Loach ousou -, mas está aqui, e feito (e filmado) por um jovem ator, Harris Dickison que filma o protagonista, não como herói. Nem vilão. Só gente. Gente enguiçada. Gente que, como tantas outras, nasceu em um mundo que não quer saber se você vai conseguir dormir seco esta noite. É um estudo de personagem que sangra e revolve a câmera na ferida. Um retrato de quem tenta remar contra um rio de lixo, com o corpo coberto de nódoas invisíveis a quem vive acima da linha da sarjeta.
O texto tão somente anda pelo asfalto com a mesma dignidade do andarilho: hesitante, rachado, mas ainda de pé, pes descalços ou em mocassim de segunda mão E é aí que Dickinson acerta porque não existe glamour na queda, só gravidade. E gravidade aqui é tudo: é o peso do olhar dos outros, é o chão frio onde se deita, é a garrafa que se esvazia antes da alma.
Não há redenção fácil. Não há música épica, qualquer fade out ou abraço ao pôr do sol. Há, sim, o ciclo, somente o mesmo, o cansativo, o desesperador enferrujado ciclo. Tenta-se um emprego. Tenta-se um lar. Tenta-se o outro. Tenta-se ser. Mas a âncora, seja ela interna, estrutural, química ou ancestral, sempre (nos) puxa, sussurra, segura… e o corpo cede. E o corpo volta. E o corpo nunca sai.
A direção de arte, tão pouco foge da paleta da precariedade: são cores sujas, tons mortos, brilhos falsos de vitrines vistas de fora. É o típico crime britânico filtrado pela névoa da negligência estatal, pela fumaça do cigarro sem filtro, pela umidade de um porão emocional sem saída de emergência.
E no entanto, mesmo entre baratas e rejeitos, existe algo. Uma fagulha. Um fiapo de fé. Talvez no toque breve de uma mão. Talvez num olhar menos indiferente. Talvez em nada, mas existe. Porque amor, como diz Dickinson, pode fazer coisas incríveis. Ainda que apenas por uma noite. Ainda que apenas para lembrar que havia, sim, um ser humano ali para cantar, antes que o mundo lhe roubasse o nome, a vontade, os dentes. Não é um filme fácil, mas um filme que se sobrevive. Que se carrega como cheiro. Que impregna. Que cutuca. Que incomoda. E assim deveria.
RATING: 74/100

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