Frankenstein


Diante de Guillermo del Toro, o mundo novamente se curva e se retorce sob o peso da criação. De novo, um relâmpago rasga o céu, a eletricidade dança e o mármore se transforma em carne. E como outrora com faunos, hellboys e pinocchios, é FRANKENSTEIN que (re)vive como um templo gótico de luz e sombra, onde cada fôlego, cada centelha e cada véu tremem com a pergunta eterna: o que nos faz humanos? O horror não ruge apenas nas bocas abertas ou nos olhos arregalados; ele sussurra no abandono, pulsa na inveja silenciosa, vibra na ternura que não encontra retorno. A criatura de Jacob Elordi não é monstruosa, é mármore vivo, alma em carne azulada, e cuja presença ressoa com uma intensidade que atravessa qualquer linguagem, atravessa qualquer expectativa. Victor Frankenstein, por outro lado, queima em vermelho: glória, ciúme, frustração, não importa, cada gesto é um incêndio, uma acusação.

Naturalmente, o design de produção é um milagre barroco por exuberância, um carnaval de formas circulares e verdes corrosivos, como se cada canto do laboratório fosse um templo de Medusa: olhar para ele é ser petrificado pelo próprio fascínio, é perceber que a criação pode devorar o criador e que a beleza contém sempre a ameaça da destruição. A circularidade das janelas, o metal espiralando para cima, o mármore refletindo a luz em ondas líquidas… tudo conspira para transformar a ciência em ritual e o ritual em redenção. Cada detalhe arquitetônico é pensado como metáfora viva: o círculo é o infinito, a vida que engole e é engolida, o ouro que se mistura ao cobre e à ferrugem como lembrança de que até a imortalidade carrega decadência.

Outrora Boris Karloff, Robert De Niro, Peter Boyle, a criatura de Jacob Elordi encarna uma serenidade e silêncio que nos faz questionar a própria definição da monstruosidade. Não há cicatriz que perturbe tal humanidade, apenas a montagem de vidas passadas, um mosaico de corpos que insiste em ser belo. Ele se move como estivesse em um teatro Butoh, talvez um monge de Tsai Ming-Liang, sempre em câmara lenta nessa dança da vulnerabilidade, uma coreografia que nos lembra que a humanidade não é o que se vê, mas o que se sente e se perde. Em oposição, Victor Frankenstein é carne e fogo: sua inveja diante da aceitação da criatura, seu ciúme diante da afeição feminina que não lhe cabe, isso lhe queima, lhe encobre como a capa que se dobra sobre ele e sobre suas memórias de infância.

As mulheres do filme, vestidas em véus translúcidos e tecidos iridescentes, flutuam como entes etéreos, entre o espectro e a natureza, lembrando que a beleza feminina não é objeto, mas certo enigma… a Elizabeth de Mia Goth é tanto inseto e fantasma, frágil e iluminada, e cada gesto seu repercute na história como se fosse um sino: se repete, ecoa, vibra, mas não se quebra. O véu que a separa do mundo e é ao mesmo tempo proteção e convite: ver, ser visto, ser amado e ser rejeitado se tornam experiências inseparáveis.

A visão de del Toro se manifesta não apenas na forma, mas no fluxo da narrativa, onde cores, luz e movimento se tornam metáforas para estados de espírito. O azul marmóreo da criatura contrapõe-se ao vermelho incandescente de Victor; o verde do laboratório se mistura à neve ártica, ao ouro ancestral da casa dos Frankenstein, compondo uma paleta que respira, que sangra, que questiona. Cada sequência é uma pintura viva, um chiaroscuro da alma.

Como o texto original, estamos diante de uma ode à solidão do mundo, uma meditação sobre criação e abandono, sobre os monstros que habitam cada um de nós e os milagres que a empatia pode gerar. Del Toro nos lembra que o horror não está apenas no que é grotesco, mas no que é humano: no abandono, no ciúme, no medo, na necessidade de amor. E, ao mesmo instante, nos sussurra que há beleza em cada cicatriz, poesia em cada gesto de gentileza e divindade no corpo que se recusa a ser apenas objeto de olhar ou julgamento.

No fim, a criatura e o criador não são apenas personagens; são arquétipos da própria existência. Ambos perdidos, ambos encontrados, ambos barrocos: anjos de carne, luz e espírito que nos convidam a ver, sentir e reconhecer que ser humano é ser simultaneamente vulnerável, sublime e terrivelmente só. Cada frame é, assim, um espelho onde a humanidade se refrata, se multiplica em infinitas perguntas e em uma beleza que queima lentamente, como vela ao vento, como sangue que pulsa sob a mármore fria da solidão.

RATING: 76/100

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REVIEW · TIFF · VENEZA · SAN SEBASTIAN · MOSTRA SP

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