


Mascha Schilinski convoca antigos fantasmas – Terrence Malick, Carlos Reygadas, Brady Corbet – para compor um pesadelo rural de ecos abafados e paredes que se fecham. Seu filme narra a história de mulheres enclausuradas pelo patriarcado do interior alemão, onde o tempo parece apodrecer junto com as tradições. Como outrora nAS VIRGENS SUICIDAS ou mesmo nA FITA BRANCA, a opressão não apenas se insinua, ela se impregna: está nas frestas das portas, nos cantos obscuros, no silêncio ritualístico do que se espera de uma mulher. A câmera espreita como um olho atrás da fechadura; nunca há espaço para o enfrentamento direto, apenas a sugestão sufocante do que se oculta. E tudo é visto pelos olhos de menina, onde a inocência serve não como alívio, mas um véu turvo para tornar os horrores ainda mais indecifráveis.
A sensação é de flutuar por uma lugar em que o tempo não flui, mas repousa nas cenas, na poeira que impregna a pele das protagonistas, ou a memória sensorial que se transforma em espectro. A fazenda, em sua quietude aparente, respira certa presença invisível (a câmera?) que observa e julga; mesmo sob a luz do dia, tudo parece filtrado por um manto de luto e ansiedade, tornando cada quadro simultaneamente belo e ameaçador. Não há sustos explícitos, mas um certo terror que se percebe entre as imagens, no modo como a lente toca corpos, paredes e móveis, quase tateando a própria respiração de um fantasma.
E assim, a narrativa lentamente corrói os nervos do espectador. Ali, diante de quatro meninas vivendo suas infâncias e adolescências no mesmo lugar, mas cada uma em uma época, em um limbo que se omite entre o que se diz e o que se filma. Quase uma polifonia de memórias, onde o tempo não progride linearmente, mas se dobra em si mesmo, repetindo gestos, olhares, os medos de geração em geração. Cada ato cotidiano, desde o pentear de cabelo até o servir de mesa, é atravessado por uma tensão invisível, um fio tênue que liga o corpo das meninas àquilo que não pode ser nomeado. Não há gritos, não há trilha sonora, apenas o som ambiente, os passos sobre o chão de madeira ou de objetos que permanecem imóveis, mas cheios de histórias que não serão contadas.
A fotografia é essencial para essa sensação de presença espectral. Ora flutuante, ora intrusiva, parece habitar a mesma fazenda das protagonistas. Às vezes, os rostos surgem desfocados no chiaroscuro, quase desmaterializados, como se a memória tentasse lembrá-las sem jamais alcançá-las por completo. É uma estética de transparência e instabilidade: passado e presente coexistem no mesmo plano, e o público se torna cúmplice involuntário do que se esconde pelos cantos, nos sussurros, nesse tremor de mãos que tentam se proteger de um mundo hostil. A violência raramente aparece com clareza, mas se manifesta em restrições, nos olhares que julgam, nos corpos que se retraem, nas escolhas que não podem ser feitas. Um cavalo calçado à força, uma criada “ajustada” para ser inofensiva, a boca de uma avó amordaçada para impedir que a morte se transforme em espetáculo: são pequenos atos que, repetidos, moldam uma sucessão de horrores invisíveis.
Tanta densidade formal é ao mesmo tempo seu trunfo e sua armadilha. Schilinski exige um compromisso quase físico com o filme: cada corte, cada pausa e cada deslocamento temporal deve ser sentido como uma presença, esse fantasma. O público se vê muitas vezes à mercê da própria interpretação, sem alívio narrativo, tão somente compelido a habitar esse espaço de opressão, a mesma rigidez quase germânica que lembra A PALAVRA, de Carl Theodor Dreyer, mas também uma poesia etérea, uma luminosidade que atravessa paredes e revela o oculto sem jamais nomeá-lo. Há um desconforto persistente, naturalmente. Talvez seja essa a intenção: fazer um cinema de memória, tempo e trauma.
RATING: 81/100

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