


SIRÂT é cinema e sentença: a lâmina que decide quem atravessa e quem despenca. É filme como rito. Filme como faca. Filme como fim. No Islã, é o caminho final, a ponte invisível, “mais afiada que espada, mais fina que o fio de um cabelo”, onde se decidem destinos, seja salvação, seja ruína, mas também é algo além, invisível, a trilha dentro da carne, o túnel que rasga o espírito. Oliver Laxe tão somente filma o som e a fúria e (nos) sangra – em cada personagem, em cada plano – tal provação. Ao público, cabe frenesi e penitência, rave e apocalipse. Um cinema que convoca demônios e santos para o mesmo deserto, e ali os abandona, queimando tudo sob o sol de uma fé trêmula e um juízo que nunca chega.
Seria delírio coletivo? Orgia sonora? Êxtase tribal? Purgatório? Não importa… o que se vê em cada frame são corpos em transe, batidas graves misturadas ao ronco de caminhões que avançam como feras no escuro. E isso é só o começo – e ele arde: a narrativa logo arranca em alta rotação na busca insaciável por impulsos primais. A tensão só cresce, o ar cheira a gasolina, em borracha queimada, em suor e pele tostada sob quentura impiedosa. Não se trata apenas de off-road, nem road movie. É algo além, além da estrada, além da lógica: montanha, fuga, abismo. Laxe não filma o deserto: ele o consome, lhe queima em película e nos lança direto ao perigo, motor gritando e adrenalina no osso. Cada curva pode ser a última. Cada ruído distante, um presságio. Há ecos viscerais de SALÁRIO DO MEDO, aquela tensão suada de carregar nitroglicerina por estradas desfeitas, mas aqui, a missão não é entregar: é sobreviver à travessia, à natureza, à guerra invisível, ao corpo em colapso… tudo ameaça, tudo arde. O inimigo é terreno, o tempo, a própria sanidade.
Não à toa esse pai em busca da filha, dessa última fagulha de si mesmo: Sergi López é, então, arremessado ao abismo, na estrada (que estrada?), ali sem mapas, só areia, só fumaça, batidas techno e ronco faminto de caminhões enferrujados. É como MAD MAX em comunhão com Tarkovsky. Os veículos, repletos de figuras reais com membros amputados, cicatrizes e olhos gastos, não são adereços. São sobreviventes, meros soldados de uma cruzada que não busca redenção, mas apenas passagem, e aqui – veja só – o milagre… eles cuidam uns dos outros. Porque nesse inferno mecânico, a única centelha divina que resta é a compaixão. Laxe – veja só – transforma aberrações em santos, condenados em guias espirituais.
O roteiro não tem qualquer trama, só percurso. Sim, um rito de passagem onde a lógica se desfaz no calor do sol. E pouco a pouco, tudo se desmaterializa: a narrativa, a melodia, até o tempo… o techno primitivo vai se dissolvendo até virar som ambiente, depois zumbido, até que o som e imagem deixam de ser separados. Vemos a música. Ouvimos a luz. O grão do filme se mistura ao grão da terra. Laxe nos conduz não à catarse, mas à desintegração. Em um estado onde já não há corpo — só vibração. Ao final, resta o silêncio. O vazio. E nele, a pergunta: o que você viu aqui? SIRÂT, eu diria: absolute cinema e sentença.
RATING: 85/100

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