Resurrection


“Isto é cinema”, diria Scorsese: sonhar em celuloide, renascer a cada corte, ressuscitar a cada filme… o que Bi Gan realiza aqui beira o impossível: HOLY MOTORS, contaria Carax; alquimia pura, murmura Méliès; testamento de sombras, assinaria Fritz Lang… o cineasta assim, convoca um a um as divindades da tela, como quem acende velas num altar de fotogramas. Seria, então, o Olimpo em travelling? O panteão que se desfaz e se recompõe a cada plano-sequência? Não… mas aqui e ali, fantasmas flutuam entre fusões, atravessam o tempo como se o rolo nunca parasse de girar e Bi Gan diante disso, tão somente filma, nos espanta, invoca os deuses e monstros… e nós, o público, mergulhamos nesse fluxo-espaço-tempo, ora homenagem, ora hipnose.

Na tela, um monstro de seis almas atravessa a narrativa como espelho da história e seus gêneros, um corpo composto por pedaços de retinas, ecos de vozes passadas, fragmentos de memória. Chama-se “fantasma”, mas poderíamos chamá-lo do espectro da própria Sétima Arte, donde cada capítulo é um rito sensorial: da visão como cinema mudo e expressionista, passando pela escuta como noir impregnado de sombras e fumaça, o paladar como vertigem do melodrama, o olfato como ruína pós-apocalíptica, até o tato como longa tomada que sangra continuidade, a mente assim como templo em chamas, de fato um cinema feito de cera que derrete diante dos nossos olhos, não à toa o poster.

Não há qualquer cronologia linear, apenas esse fluxo-contínuo que parece gravado em rolo infinito. Os planos, por vezes, lembram o torpor aquático de KAILI BLUES, a vertigem noturna de LONGA JORNADA NOITE ADENTRO, mas agora tudo se expande em escala mítica: Bi Gan, como sempre, busca a estrutura mais simples, mas o faz em labirinto (e não seria o próprio cinema um labirinto que promete clareza e entrega vertigem?)

Sim, tal conceito é monumental na ambição e ínfimo na organização. Bi Gan diz querer oferecer conforto e o constrói com a naturalidade de quem ergue um mausoléu e, ao mesmo tempo, um berçário. Seu protagonista é mero corpo passageiro, vela, monstro ou cinema que se consome enquanto ilumina. Então o que se vê é fiapo de narrativa, senão um rito fúnebre e renascentista. É a câmera a passear pelo frame como quem acaricia a morte e arranca dela uma última canção. É o olhar de uma jovem que se dissolve no vazio e ao mesmo tempo funda um mundo. De um homem que se transformando em passagem e não em personagem, enquanto a trilha (fantasma?) não soa como mera música, mas uma pulsação do próprio projetor.

Ao final, nos resta a sensação de termos percorrido um plano-sequência que atravessa a história do cinema, um travelling que começa no olhar emudecido de 1900 e termina na incandescência digital de hoje. Bi Gan não apenas celebra esse percurso: ele o vela, o exorciza e o restitui. Seu cinema é ressurreição contínua, um milagre que não se explica, só vê, se sente.

RATING: 84/100

TRAILER

Article Categories:
REVIEW · CANNES · MOSTRA SP

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.