Nouvelle Vague


NOUVELLE VAGUE é cinema feito no verso de um guardanapo manchado de café, talvez de improviso entre goles num bistrot barato. É filme como ruptura, reinvenção, talvez revolução, enquanto isso, nós, o públicO ACOSSADO, seguimos adiante, atordoados pelo disparo, o mesmo que Godard um dia puxou: agora, outrora, para sempre, não importa, o detalhe é que Richard Linklater não homenageia, mas sim reencarna, um tanto aos tropeços, no vacilo da fala, o embalo da conversa e donde o erro é método e improviso. Assim, cada cena parece prestes a evaporar ou nascer ali mesmo, diante da câmera (de Raoul Coutard?) que flana. Testemunha. É outro personagem. O projeto, a missão ou manifesto parece transformar o cinema num organismo vivo, errático, errante, que respira com a sala e juntos respiramos em epifania. Uma quarta parede quebrada com charme e depois reconstruída com aceno cúmplice do outro lado, sem medo de ser autorreferente. Quase obrigatório. E, claro, um deleite.

Linklater sempre foi um cineasta do tempo, da conversa, do instante, mas aqui, ele se volta ainda mais às origens: a Paris de 59, diante de uma juventude com a ousadia de reinventar todo o cinema a partir de um corte. Não é mera biografia do gênio, tampouco reconstrução arqueológica, nem de refazer um filme já feito, mas de mergulhar no próprio gesto de fazê-lo. “Vocês não estão atuando num filme de época, estão vivendo o momento” foi a orientação dada ao elenco e a verdade não está no figurino, mas na respiração.

E que respiração… há um prazer quase adolescente em se filmar Godard não como um mito, mas como um crítico ansioso, frágil, arrogante, apaixonado, com medo de ter perdido a (nova?) onda. O público já sabe, os personagens não e essa ironia atravessa o filme com a leveza de um Jean-Paul Belmondo rindo no set, certo de que o filme jamais seria lançado. Ao mesmo tempo, paira a dúvida de Jean Seberg, que não sabe o que está fazendo ali. Entre o riso e o tédio, nasce o cinema novo.

A narrativa é a própria ideia do “hang out movie”, o filme como conversa que se torna cinema. E assim, se (re)encontra a forma não só para contar como nasceu O ACOSSADO, mas a própria possibilidade de filmar a vida em fluxo. A câmera, portanto, se torna cúmplice dessa deriva. O preto e branco, longe do fetiche-clichê, vibra como esse olhar. O erro não é disfarçado, se torna o próprio estilo. Improvisar é ensaiar até a exaustão para então parecer natural, como jazz.

Há ecos de Truffaut naturalmente, lembrando que “o cinema do futuro será um ato de amor”. Diante da tela, o sentimento é exatamente isso: um ato de amor que se sabe tardio, mas insiste em ser urgente. Arte endereçada não só a Godard, mas a todos que um dia saíram da sala pensando “eu também posso filmar”. E disso, o presente perpétuo da própria Nouvelle Vague: a constatação de que o cinema sempre pode nascer de novo, numa esquina, numa conversa atravessada, numa câmera emprestada, num plano que não se sabe onde vai terminar. Basta acreditar e se atirar em um salto de fé.

RATING: 79/100

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REVIEW · CANNES · TIFF · SAN SEBASTIAN · MOSTRA SP

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