Mirrors No.3


Em MIRRORS No. 3, Christian Petzold abre não apenas uma janela, mas a própria película, como quem deixa o vento atravessar a tela e pousar sobre nós. E assim, depois de mergulharmos em UNDINE e queimarmos em AFIRE, chegamos enfim ao elemento ar: não mais o peso da água ou a devastação do fogo, mas a leveza invisível que sustenta e escapa. Um cinema que paira leve, como cortina movida pela brisa. E de novo Paula Beer em estado de graça, e de novo um enredo mínimo, quase evaporado, como se a narrativa estivesse sempre à beira de desaparecer. Como em Eric Rohmer, sobretudo em CONTO DE PRIMAVERA, tudo se dissolve no instante: o olhar que se demora um pouco além do necessário, a mesa posta no jardim, a conversa que se arrasta entre afazeres domésticos, o riso que irrompe sem motivo, só porque o sol aquece o rosto. Petzold filma, então, o banal como quem colhe joias no chão: um passeio à beira da estrada, um vento que levanta folhas secas, a tarde que se alonga preguiçosa… são minúcias que carregam em si uma força maior que qualquer revelação.

E no centro, essa protagonista florescendo… ela, sobrevivente de um acidente, embora o que precise ser salvo não seja o corpo, mas o próprio sentido da vida. Ela, acolhida por uma desconhecida e, depois, pelo marido e pelo filho. Ela, nessa calma provisória, quase num oásis, ali entre uma família sonhada, construída não pela presença, mas pela ausência que todos compartilham. É senão o arco de Kleist sustentado pelo risco da ruína: a beleza nascida justamente do que se ameaça desmoronar.

O que poderia ser um drama de mistério se revela então como uma fábula etérea. O acidente não se mostra: apenas se escuta. O invisível ganha espessura, o não-dito se torna matéria. Como o vento, que nunca vemos e sempre sentimos, o filme vive de pressentimentos, ecos, sinais… a protagonista atravessando a narrativa como estrangeira e necessária, meio aérea, refazendo em poucos dias um percurso inteiro de vida: aprender a pedalar, escutar histórias, redescobrir os sentidos, tocar piano… não se trata de recuperar o que se perdeu, mas de inaugurar o que ainda não existia.

SIm, há um pouco de conto de fadas escondido ainda nessa cabriolet vermelha, nesse olhar lançado pela estrada, nessa família que acolhe a forasteira como filha, mas é um conto às avessas, como diz Petzold, porque aqui “o príncipe está morto”. Não há resgate, não há coroação, apenas um intervalo suspenso em que a mentira e consolo se confundem. E novamente como em Rohmer, não há solução, nem moral, apenas o sopro de uma experiência partilhada, em que o público não decifra, apenas sente.

A presença de Rohmer, aliás, é ainda mais visível no modo como Petzold deixa o tempo respirar. O verão não é cenário, mas plena condição: o vento que atravessa os diálogos, o sol que brilha sobre a mesa, a chegada lenta do outono como uma transição da própria narrativa. Não há qualquer urgência aqui, apenas a passagem dos dias e naturalmente o cinema reduzido ao essencial, tão somente corpos, luz, movimento.

E então resta o sorriso final de Paula Beer, frágil como uma promessa e suficiente como um milagre. Não há reconciliação plena, nem retorno. Há, sim, a certeza de que aquele tempo tecido de ilusões foi verdadeiro o bastante para (nos) salvar. Ainda que seja mentira, é ainda belo e talvez – só talvez – seja justamente a beleza que nos permita sobreviver. Como a barca improvisada com destroços, navegando sobre o oceano de Ravel, MIROIRS No.3 não ensina como viver, mas como respirar no intervalo entre os escombros.

RATING: 80/100

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REVIEW · CANNES · MOSTRA SP

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