Enzo


ME CHAME PELO SEU NOME: de um lado, o concreto armado do cinema de Laurent Cantet, moldado pelo rigor das tensões sociais, as formas realistas, as fissuras de uma estrutura coletiva onde o tijolo humano range sob o peso da desigualdade. Do outro, o cinema de Robin Campillo, que ergue seus andaimes com vigas de desejo e alicerces de corpos em fluxo, uma arquitetura viva, palpitante, que transpira… entre esses dois edifícios ideológicos, surge ENZO, o filme, o personagem que não se encaixa nem na planta nem na viga. Um projeto inacabado. Um vão entre as colunas. Um jovem em terreno instável, deslocado da própria casa, desencaixado de sua classe, ainda escavando os fundamentos da identidade.

Enzo é, ele próprio, um entrepiso: aqui sustentando tanto o peso da denúncia social quanto ao eco de corpos que sonham. É um filme de descobrimento, mas sem as paredes erguidas, somente alguns andaimes. O sexo não se consome, fica nas entrelinhas como o esboço de um cômodo jamais construído. O que se vê é a planta baixa do querer, desenhada entre estilos em tensão: de Cantet, que ergue a crítica; de Campillo, que embute o afeto. E nós, espectadores, vagamos nesse canteiro emocional de juventude em obra.

Sim, o edifício permanece aquele sonhado por Cantet, recentemente falecido deixando para trás um cinema de contenção e confronto, mas é Campillo quem hoje ocupa o canteiro, reconfigurando suas linhas: substitui o concreto pela carne, o peso pelo sopro. Seu gesto está na escolha do elenco, na maneira como alinha intérpretes profissionais como Élodie Bouchez e Pierfrancesco Favino com esses atores “não profissionais”, vindos do chão da fábrica. Maksym Slivinskyi, que vive Vlad, foi operário antes de atuar, e traz ao filme essa fusão de força, cansaço e reserva emocional que cimenta a autenticidade. Já Eloy Pohu, como Enzo, não é apenas revelado, ele revela. É dele que emana a contenção, a disciplina, o silêncio que moldam esse jovem em suspensão.

Um filme que escapa do subtexto de “adolescente em crise”, é outra coisa: talvez uma resistência, um ato, um corpo que recusa moldes – seja o da escola, da família, da guerra iminente. A narrativa não dramatiza esse movimento: apenas o acompanha, deixando que o espectador perceba a lenta inclinação desse jovem para as sombras. Diante de um lar onde tudo é luz – piscina, verão, estabilidade -, ele sempre se volta ao escuro, ao silêncio das falésias, à noite como paisagem emocional. Se constrói algo, é no limite da ausência: um romantismo de particular, feito de penumbras e recortes de lua.

Tal romantismo toma forma na figura de Vlad – mestre de ofício, objeto de desejo, persona de uma masculinidade fatigada. Mas o filme – de novo – se recusa a fixar essa relação. Como num prédio em reforma, nenhuma parede se fecha por completo, não há revelação sexual, não há “saída do armário”, apenas o habitar desconfortável do mundo. Enzo não está em crise: está em dissidência, ele é o eco de algo que insiste em não se adaptar, que escolhe o atrito à acomodação. Por que recusa o conforto? Por que não se contenta com o dia claro, o barco, a ruína domesticada? Talvez porque precise construir outra coisa – mesmo sem saber o quê.

E talvez seja aí que ENZO – o cinema – encontre seu sentido mais profundo: não como obra finalizada, mas como maquete inacabada de um futuro ainda em construção. O filme se encerra como começou, sem alicerce fixo, sem paredes que contenham, apenas o rumor persistente de uma juventude que cava. Que sonha. Que resiste à solidez. Como se dissesse, com o corpo e com o olhar, que às vezes é preciso demolir antes de habitar. Que há beleza no entulho. E que algumas casas, como alguns filmes, foram feitas para permanecer em obra.

RATING: 76/100

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REVIEW · CANNES · MOSTRA SP · FILMES LGBT

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